Publicado em Integração Psico-Espiritual

A relação afectiva com Deus

A base afectiva está ligada, salvo em pessoas excepcionais, às necessidades psicológicas, às imagens parentais e à “bagagem” que a pessoa desenvolve desde os 18 aos 20 anos.
Muitas vezes esta base permanece indiferenciada e muito presa somente ao humano e ao social, ficando a relação com Deus sufocada a nível afectivo. Uma coisa é ter uma base religiosa muito rica, outra é estar somente focalizada nessa religiosidade que não desenvolve outras dimensões como a da autonomia.
Como é que se resolve o “conflito” afectivo com Deus?
Sobretudo as pessoas que têm uma base educacional religiosa sentem que a relação com Deus está muito “formatada” entre o fazer e o não fazer a sua vontade, o que confere muitas vezes a relação com Deus economicista: eu dou-Te e Tu dás-me.
Ao contrário: será a experiência teologal aquela experiência que faz o homem sentir-se justificado por Deus, tendo como consequência a obediência da fé pela parte do homem. Esta afectividade teologal não é um puro sentimento religioso. Um bom teste para o discernimento da nossa relação afectiva com Deus será o do centramento/descentramento:
a) O descentramento é activado quando o homem se sente dependente (de Deus e dos outros). Com esta atitude, ele abandonase a um ideal e saindo de si mesmo começa a perceber o sentido do Absoluto.
b) No entanto, o processo de personalização da fé deve recolocar este ideal no momento exacto em que o homem “abre os olhos” para o sentido da vida. Este processo de personalização implica o centramento da pessoal no seu “eu” real e na integração das necessidades, de forma que a pessoa se torna autónoma.
Quem é que disse que para pôr Deus no centro teríamos que nos descentrar-nos? O objectivo da vida cristã não será, sim, ir para o centro, ter com Quem já lá está? Naturalmente que a maior das dificuldades será sempre a da linguagem.
Sem uma real humanização a religião transforma-se numa idealogia de perfeição que não toma em consideração os processos reais da pessoa. Por isso, só a partir do “eu real” com as suas necessidades de afecto, atenção e aprovação que estão inscritas no seu íntimo desde a sua criação, é que se poderá construir uma mais sã relação com Deus. Em resumo, será uma relação de “autonomia dependente” a que caracterizará essa relação.

Autor:

Padre da Diocese de Viseu