Publicado em Integração Psico-Espiritual

O "porquê" e o "como": da fábula à realidade, do plagal ao autêntico

Enquanto o homem não é capaz de contar a um bom interlocutor a sua história, de forma a poder ele próprio percorrê-la e contemplá-la com realismo, então tudo lhe paracerá uma fábula.
Assemelho o narrar da história autobiográfica com a narração dos próprios feitos humanos e divinos narrados na Bíblia: umas vezes pelo recurso ao mito e às metáforas, outras vezes pela simples narração de factos se vai construindo uma história com nexo, capaz de dar sentido à existência.
Quanto ao interlocutor de qualidade (um homem, para contar a sua história tem de ter um ouvinte ou um suporte a partir do qual a possa revisitar) poderá ser uma pessoa de confiança na forma de narração falada ou a um diário na forma de narração escrita, ou as duas formas. A importância do interlocutor está na sua capacidade de ouvir sem reacção derivada de juízos de valor, pois não se trata de uma intervenção de tipo moral, mas de um relacionar factos e ajudar a organizar a tessitura da vida, com tudo o que ela comporta: luzes e sombras, fios de todas as cores, e os rasgões, sem esconder nada, pois por detrás do que não parece belo de contar pode estar escondido o ligame que dá sentido e beleza ao todo.
Quando, no decorrer da narração autobiográfica se é capaz de contemplar a partir do ouvido e da percepção do interlocutor a sua própria história, a sua existência, então os porquês que se vão fazendo no dia-a-dia vão encontrando a sua resposta; a realidade pessoal vai ganhando os seus contornos naturais, a partir dos quais podemos projectar a vida pessoal e fazer uma oblação mais coerente com as próprias possibilidades.
Com isto não podemos esquecer de dar espaço ao mistério. É aqui que entra o “como?”: – Como é que Deus quer, como poderei assim, com o que sou, com os dons que tenho, com as limitações que tenho, dar-me, ser feliz…? Enfim, como poderemos projectar o “como” sem primeiro desenharmos, quanto possível, o “porquê”? Se for músico e compreender o qua são as cadências plagais e autênticas, aproveite a metáfora:
Quanto mais plagal (descendente, humilde e sincera) for a percepção da autobiografia na busca do “porquê”, mais autêntica será a vocação na descoberta e na execussão do “como” viver e servir.

Autor:

Padre da Diocese de Viseu