Vontade: o verdadeiro exercício quaresmal

Ao navegar pela Net encontro este logótipo organizacional de um “plano de acção social”. Não quero aqui julgar este tipo de organizações, ainda que muitas delas pouco passem de organismo e planificação!

Quero apenas aproveitar o símbolo para, depois de ter falado, no anterior post, sobre a saúde do “coração dos cristãos”, reflectir sobre a maturidade da vontade.

Pode acontecer também que a proposta quaresmal da oração, jejum e esmola ou misericórdia não passem de uma planificação espiritual, porventura fruto de um a entusiasmante homilia do sr. prior ou de um retiro purificador. Organizamos um plano de vida espiritual e até escrevemos num papel ou na memória as atitudes a pôr em prática.

No entanto, chega o momento de concretizar aquelas atitudes e…. eis que a vontade está bloqueada. O que se passa? O que é que aconteceu nesta hora? Eram somente boas intenções, aquelas de praticar a caridade? Muitas vezes (acontece nas organizações sociais como nas eclesiais) planificamos muito bem uma acção a realizar, mas depois, quando se trata de “pôr a última pedra” vem a preguiça, ou já não existem mais recursos…

A vontade é uma das clássicas faculdades da alma que a Psicologia, hoje, prefere traduzir pela palavra “querer” que se expressa por atitudes empiricamente observáveis. Nesta dinâmica da vontade há que analizar os parâmetros da liberdade, da força e do estilo, que dependem de factores quer interiores, quer exteriores. Esta análise pessoal poderá ajudar a que a espiritualidade à volta da pedagogia da quaresma não se fique pelo farisaísmo do qual tantas vezes no Evangelho Jesus nos adverte: a incoerência manifesta de valores abstractos que não se vêm praticados. Não é que tenhamos de ser “impecáveis” para testemunharmos os valores. A dinâmica quaresma sugere-nos que nos punhamos na luta do exercício da vontade: radicalidade em factos!

Muitas vezes, grande parte das nossas energias interiores, gastas a organizar, faltam na hora de praticar a caridade. Esta precisa de ser reflectida, sim. No entanto, porque há acções que a razão desconhece e razões que o coração ignora, poderá acontecer que muitos dos nossos desejos de pôr em prática a caridade e a misericórdia fique no círculo pessoal de uma piedade íntima que não serve senão para “engordar” o nosso “eu”.

A proposta poderá ser a de perdermos algum tempo a dar atenção às agendas dos outros, não escrevendo, mas ajudando a cumprir o que os outros lá têm escrito como necessidade. Essa necessidade aparece muitas vezes ao virar da esquina, com uma aparência muito subtil, muitas vezes banalizada pela centralidade das nossas “agendas pessoais” da caridade.

Contemplando o símbolo: oxalá a Igreja e a sociedade fosse composta de grupos humanos que pulssassem esse “sangue” vivo de acções concretizadas com a pura e gratuita finalidade última do bem-estar do outro, suma expressão do amor de Deus!