As "três tendas" (Mt 17,4)

Em posts anteriores apresentava os três passos que a ascese quaresmal proclama como os mais seguros para fazer uma páscoa mais autêntica: a oração, o jejum e a esmola; acrescentava depois três possíveis desvios a esse caminho de encontro a Deus misericordioso, marcado pels tentações do deserto da vida: o ter, o valer e o poder.


O 2º Domingo da Quaresma, no texto da Transfiguração (Mt 17,1-9), sugere-nos, diante do assombro contemplado pelos três apóstolos Pedro, Tiago e João na Luz antecipada da glória do Senhor, a presença de três condicionantes – as “três tendas” – que o Pedro sugere a Jesus, ao que Ele, orientando a atenção dos Apóstolos noutra direcção, responde: «Levantai-vos e não tenhais medo» (v. 7b), implicando-os na imediata descida do monte.

Na nossa itinerância quaresmal podemos ter em conta algumas condicionantes que podem limitar ou desorientar daquela imediata e necessária descida do “monte” da nossa contemplação da glória do Senhor que nos é dado “saborear” na Liturgia. Não basta, de facto ter em mente os ideais quaresmais da oração, do jejum e da esmola, assim como das tentações que nos podem afastar desses ideias. Para além daqueles meios e destes desvios da tentação, estamos sujeitos a condicionantes que não têm que ver directamente com a tentação e que podem influenciar negativamente aquela ascese.

Na realidade, pode haver condicionantes psicológicas que, não sendo conscientemente advertidas pelo sujeito, poderão ser nefastas a uma ascese espiritual. Habitualmente, essas condicionantes estão “alojadas” na memória do inconsciente, gravadas no nosso profundo ser por “feridas” mais ou menos graves nos primeiros anos de vida, e que por uma mecanismo de transfert um indivíduo tende a transferir esquemas de sentimentos e pensamentos, relativos a uma relação significativa, sobre uma pessoa inserida numa relação interpessoal actual (inclua-se a relação com Deus e com os irmãos na dinâmica ascética quaresmal).

Proponho a reflexão breve sobre os seguintes mecanismos de defesa activados por aquelas feridas narcisísticas (de um bem-para-mim), que nos impedem de desenvolver do caminho do bem-para-Outrem da oblação pascal:

1. A idealização: mecanismo de defesa que leva um sujeito a atribuir qualidades exageradamente positivas aos outros (e também, em certos casos de si próprios). Isso permite superar os estados de desilusão ou de graves carências mediante a passagem da situação deficitária à ideal. O outro é caracterizado com valores sobrenaturais capazes de colmatar cada necessidade. O outro é privado de defeitos e, se existem, são eliminados pelo filtro do apagamento. No processo de idealização colhe-se só aquilo que se quer ver e a mente apaga cada “mancha de tinta”, mesmo a mais invasiva e evidente.

2. A omnipotência: é um mecanismo de defesa com o qual um indivíduo responde a um conflito emotivo ou a fontes de stress internas ou externas comportando-se como se fosse superior aos outros, como se tivesse especiais dotes ou capacidades. Quem não sabe meter-se em discussão e declarar a sua imaturidade e debilidade, inconscientemente defende-se com este mecanismo, do bastar a si próprio, de não ter necessidade da ajuda externa. Em medidas diversas, está presente em todos nós.

3. A desvalorização: consiste em atribuir características exageradamente negativas a si próprio ou aos outros. Esta tandência está radicada nos inputs iniciais da vida, recebidos durante a relação com as primordiais figuras de protacção. Este sentimento impede a pessoa de se revelar na liberdade de ser aquela realidade para a qual foi criada, permitindo-se ser feliz como é realmente, compaginando as qualidades com os limites pessoais, no “aqui” e no “agora” da vida.

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Para além de influenciar a percepção e relação connosco próprios e com os outros, estes três mecanismos também influenciam a nossa relação com Deus. A imagem que temos da Sua existência está muito longe de ser transparente e isenta de tais mecanismos. É um desfio quaesmal também, como fizeram muitos Santos no seu itinerário de cenversão, eliminar todas as ameaças e treinar todos os meios para uma melhor e mais autêntica imagem de Deus, promotora de uma mais saudável relação.

Diante daqueles três mecanismos, nos quais está sempre uma distorção da realidade, e sendo necessário voltar do “monte da transfiguração” com uma autêntica vontade de viver os desafios do quotidiano cristão, somos convidados a fazer uma série de “perguntas ecológicas” que nos questionem naquelas dimensões apontadas, em relação a Deus, aos outros e a nós próprios.

Um realismo esperançoso, uma criaturalidade confiante e uma auto-estima valorizadora do próprio ser podem ser, como alternativa àqueles mecanismos, condicionantes mais eficientes para activar aqueles “passos para fazer a páscoa”!!

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