A escravidão em três desvios

Há alguns posts atrás apresentava a “Páscoa em três passos”, transmitindo a proposta cristã da oração, do jejum e da esmola como formas para chegarmos à meta da Páscoa.

A Liturgia do Primeiro Domingo da Quaresma adverte-nos das três formas de retrocesso ou de desvio daquela direcção do itinerário cristão. As três tentações que Jesus experimentou, sem cair, sintetizam todas as tentações que o ser humano pode experimentar:

1. A tentação do ter: à invectiva demoníaca de transformar as pedras em pão, Jesus apresenta a Palavra como alimento fundamental que enriquece a vida do homem;
2. A tentação da valer: à invectiva da auto-suficiência diante de sinais extraordinários, Jesus adverte que não se deve tentar o Senhor Deus, pois o valor do homem já está inscrito dentro de si pelo Criador;
3. A tentação do poder: à invectiva da ambição e idolatria, Jesus demanda a adoração do único Deus verdadeiro a Quem tudo pertence, no céu e na terra.

É de sublinhar que já no episódio da Criação (Génesis) a serpente aparece a dialogar com a mulher. As palavras daquela são enganadoras e manipuladoras, como as do demónio do deserto, e as da mulher escondem parte da verdade, ajeitando-a a seu benefício.

No episódio das tentações no deserto, Jesus corrige o discurso inicial da humanidade diante do mal, respondendo à manipulação do demónio com a verdade total, a única capaz de garantir ao homem a salvação. Numa das cartas que escreveu, Santo Inácio apresentava as duas principais armas que o demónio utiliza para enganar os que fazem o caminho em direcção a Deus: a primeira consiste em iludir-nos com tanta penitênica de forma a vermos mais sofrimento na vida de Deus do que confortos e consolações; a segunda é a vanglória que faz entender que a nossa alma já tem bondade e santidade suficientes de forma a pôr-se num nível acima do seu mérito (Cartas, 725).

Os três passos apresentados pela pedagogia quaresmal – oração, jejum e esmola – são a “terapia” eficaz para se poder “sobreviver” diante das tentações; não digo fugir, pois algumas situações poderão ser momentos de prova diante das quais Deus nos pede uma resposta.

Aos que se propõem dar os passos da Páscoa, fugindo aos desvios da tentação, o Senhor envia os seus Anjos para os reforçar na aridez do deserto.

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