Diálogo cultural: um sempre novo e urgente caminho de conversão

O homem, num desejo exasperado de dar um nome à sua “nova cidade” de Babel, querendo com essa autonomia arrogante, chegar ao céu, ou seja, igualar-se ao seu Criador, começou a afastar-se daquele ideal primordial da diferenciação e da alteridade como fundamento da criação que implica uma postura dialogante com toda a obra criada, incluindo o ser humano, também diferenciado por natureza: o homem, a mulher e a silgularidade de cada pessoa (cf. Gn 11).

Uma sociedade sem Deus é precisamente uma sociedade, onde se inclui a Igreja e cada confissão de fé, é uma sociedade sem diálogo que seja ponte ou comunhão de diferentes culturas humanas. Está mais do que na hora, pois, de deixar de fazer sistematizações que não partam “de baixo”, da base criatural da existência humana, que nos liga a toda humanidade e ao universo dos seres criados. É preciso saber descobrir nos processos internos de uma cultura os sonhos e sofrimentos, processos inconscientes e reacções estéticas diante de uma sociedade e de uma Igreja determinada. É necessário assinalar percursos possíveis, advertindo poeticamente e profeticamente estações de novas alianças entre o céu e a terra.

A espiritualidade ocidental foi maioritariamente marcada pelo estoicismo, epicurismo, platonismo e neo-platonismo, marcadamente dualista na concepção da pessoa, influenciando uma espiritualidade abstracta, quase puramente espiritualista. A afectividade e os aspectos humanos fundamentais de base criatural estiveram pouco acentuados naquela influência que ainda vigora na mentalidade espiritual dos nossos dias, mesmo na vivência da fé.

Vejamos nas questões práticas: como é possível definir como coerente umaa vivência da fé com o Criador com uma prática ainda tão frequente de “acender velas a defuntos” em muitas igrejas, em vez de “gastar pão” com os semelhantes que passam fome? Como é possível fazer abstinência quaresmal fugindo à proposta eclesial de remeter o fruto dessa prática para os semelhantes que necessitam? Como é possível conceber uma espiritualidade que não comece por ser contemplação da obra da Criação? Como é possível não dialogar com as culturas, onde Deus também Se manifesta na sua pluralidade misteriosa? Uma boa releitura vivencial dos textos de Is 29,13 (sobre o verdadeiro culto) e de Mt 6,1-8 (sobre a discrição coerente da esmola e da oração) será capaz de nos pôr numa outra “nova estrada da fé”!

Torres de Babel, estão por aí: nas nossas comunidades promotoras do seu “bairrismo social”… nas pessoas pretendentes de um possível “protagonismo individualista”… Um propósito quaresmal provavelmente capaz de agradar a Deus seria começar por deitar abaixo, não sem algum lento sofrimento, essas “novas torres de babel”. Deus fez a sua parte, obrigando-nos ao difícil esforço do diálogo com novas línguas e expressões culturais (cf. Gn 11,7-8); a nós cabe-nos aceitar esse esforço com as possíbilidades impressas na nossa simples criaturalidade.

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