Penitência: de onde e até que ponto?

Na vida de Santo Inácio de Loyola descobrimos que o heroísmo que o levava a penitenciar-se até ao extremo de superar o exemplo dos Santos que ele conhecia era fruto do “orgulho cavalheiresco” espiritualizado, transformado, que permanecia, apesar do seu esforço, o mesmo orgulho. Descobriu, com o discernimento, que era a graça de Deus, não obstante o seu esforço, que justificava as faltas da sua vida passada (cf. Autobiografia, 14).

Uma penitência que seja unicamente de uma pretenciosa ascese que queira demostrar a Deus, individualisticamente, o quão temos pena de O termos ofendido, pode levar ao desespero e, enfim, ao desânimo espiritual. Sem o devido discernimento, a penitênica pode quebrar em vão a nossa realidade humana onde se “espelha” a centelha do amor divino. Penitência desregrada e não discernida pode gerar futuras penitênicas, incluindo a possível necessidade de reparar os efeitos daqueles danos.

A paz espiritual é sobretudo iniciativa de Deus à qual o homem pode responder livremente, também com actos de penitênica. Estes também podem acontecer por sugestão divina, quando estamos diante de uma circunstância própria ou dos outros que nos pede uma atitude corajosa de intervenção. O mesmo se diga em relação à aridez espiritual: umas vezes acontece fruto do pecado ou contingências diversas, ou também pode ser pedagogia divina a provar a nossa fé.

A vida traz-nos muitas ocasiões de penitência que podemos aproveitar para colaborar com a iniciativa amorosa de Deus. Discernir os momentos, as oportunidades pode ser um caminho feliz para não “inventarmos” mais penitências que sobrecarreguem a vida inutilmente. Há quem fuja de qualquer tipo de penitênica, vivendo uma existênica sem qualquer tipo de juízo, e há quem procure todos os meios para “se castigar”, pensando que a cura está nos actos derivados pela excessiva culpabilização.

A Via-Sacra parece ser uma metáfora do nosso caminho humano, que Cristo assumiu até à morte, onde encontramos elementos para viver uma penitência com sentido de vida eterna.

O Sacramento da Reconciliação alimenta a nossa interioridade para a fazer crescer para uma existênica adulta, onde podemos depôr o “jogo” de tantas condenações e, seiramente reconciliados, tornarmo-nos portadores de paz, silenciosos e fortes, que fazem crescer cultura e sociedade com sementes de esperança jubilosa.