Um diálogo corporal terapêutico

Hoje proclamamos na Liturgia da Palavra o texto de Mc 5,21-43: o relato da cura da filha de Jairo e da hemorroísa. A actividade terapêutica de Jesus é uma das características mais notáveis do evangelho de Marcos. Neste evangelho, as pessoas curadas por Jesus são personalidades colectivas ou “diádicas”, ou seja, indivíduos que dependem fortemente da opinião e da avaliação dos outros. Não esquecemos com esta afirmação que na cultura bíblica antecedente a Jesus, na qual Ele marca a sua ruptura e progressão, as doenças tinham um significado eminentemente social e cultural, muitas vezes separando os que as suportavam dos demais entes queridos.

De modo particular, a mulher hemorroísa avizinha-se de Jesus com um sentimento temoroso e vergonhoso, depois de doze anos de uma doença que a isola e separa de todos os outros, enquanto culturalmente impura. Aquela hemorragia uterina crónica (J. P. MEIER) mete-a numa situação em que parece que a vida se esvai lentamente, cujo esvaziamento anuncia um fim iminente, levando-a com uma decisão desesperada a andar de encontro a Jesus. É um encontro fugaz, msa decisivo para a sua vida!

Pode ler-se aquele encontro de muitas maneiras. Apraz-me também interpretá-lo como “um diálogo corporal terapêutico” (Núria CALDUCH-BENAGES) entre a mulher e Jesus, um diálogo entre um corpo doentio e a potência do amor que cura.

Antes de mais, é importante que no contexto da antropologia bíblica distingamos enfermidade (disease) de doença (illness). Aquela refere-se a uma disfunção médica que atinge um órgão do corpo, enquanto que a doença designa o estado de humilhação do próprio ser que vive uma pessoa quando o contexto social no qual se move faliu ou perdeu significado. No contexto antropológico que Jesus veio transformar, a doença não é tanto uma questão biomédica quanto social, atribuída às causas sociais e não físicas. Pecado e doença vão unidas na mentalidade judaica daquele tempo (cf. Jo 9,1-3).

Chamando, em particular, a atenção para a cena da hemorroísa – Mc 5,25-34 -, podemos perguntar porque será que a mulher tem medo de se encontrar com Jesus. Será por causa da sua possível reacção? Não! Será, certamente, pela reação daqueles que sustêm aquela Lei dura e cruel que afasta os “impuros” do convívio social. Ela está consciente do seu ser impura, mas também está segura de que só naquela “clandestina” possibilidade de tocar no mistério de Jesus está a sua misteriosa cura e solução para a vida que se mostra caduta.

A ironia desta história está em que uma violação das prescrições legais leva aquela mulher à sua tão esperada cura e felicidade. Nessa atitude está contida a sua esperança, a confiança e o dom de uma vida eterna. É que o desejo de vida é mais forte que a lei, a cultura, a tradição. É esse desejo que provoca a cura, que a mulher sente, mesmo antes de Jesus se ter pronunciado.

Por fim, a reacção de Jesus é também corporal. A multidão apartava-O, mas este aperto não não era comunicação significativa. Pelo contrário, aquele gesto da mulher consciente, desejado, pensado, cumprido, que requeria resposta, ajuda, cura, é o gesto de comunicação que Jesus percebe. Jesus podia ter continuado o seu caminho, mas não. Jesus não se quer calar diante daquele encontro corporal. A sua atitude salvífica, libertadora não quer ficar por ali. Ele quer denunciar aquele sistema legal que oprime. Jesus diz à mulher que se realize: introdu-la na paz da sua própria vida livre, permite-lhe ser mulher na saúde e na autonomia (X. PICAZA).

O único meio que pode curar é o amor: acção que é relação completamente independente e livre das questões de dignidade/indignidade, pureza/impureza, uma “mão” que alguém pode estender sem ser refutado, um contacto que não esige nada para si, como que um ligar de um “circuito eléctrico” através do qual flui a energia da cura. É também uma corrente que vai em sentido inverso, o de Jesus que enche o vazio que o ser humano sente em si, uma força que sai d’Ele e faz parar o “fluxo” das nossas dores e debilidades (cf. E. DREWERMANN).