Publicado em Integração Psico-Espiritual

Pastoral de uma "nova" espiritualidade

Naquela que se poderá chamar a “pastoral de uma nova espiritualidade”, é possível que nos confrontemos com uma reacção subtil à novidade espiritual nos interlocutores dessa novidade. Essa reacção poderá ser que seja a:

1. Uma espiritualidade indispensável: é a espiritualidade do essencial. Ainda continua a ser frequente o pensamento de que uma relação espiritual sã com Deus seja desenvolvida com “muita” oração e sobrecarga de “holocaustos” espirituais para que Deus possa sanar essa vida. Costuma acontecer quando a pessoa se sente humilhada pela própria vida e nessa situação de “baixa auto-estima” necessitasse de “aplacar” a ira de Deus. O caminho melhor será pôr em marcha o razoável, sem excessos de euforia evasiva, o compromisso cristão e vocacional de cada um, através do essencial: a liturgia comunitária (os sacramentos…) e a oração pessoal, em relação com o trabalho.

2. Uma espiritualidade olística: esta é uma implicação antropológica da espiritualidade, deixando que ela atravesse ou ilumine todas as dimensões da pessoa (olístico = ólos = todo, totalidade). Assim, a espiritualidade tem a ver não só com o pensar, mas também com o sentir e o agir. Não basta ter intensões!… Não basta dizer: “Senhor, Senhor… Uma boa espiritualidade também está nas nossas mãos… e no andar…, não só no “banco” da nossa súplica.

3. Uma espiritualidade mistagógica: teremos sempre a impressão de que a oração cristã será “uma voz entre dois silèncios” (Maurizio Costa, 2004). No entanto, a pessoa necessita de estar numa crescente conscientização do conteúdo da oração. Na prática: deve estar consciente do que diz. Não basta dizer palavras ou fórmulas soltas, a sua expressão tem de vir de dentro, não só do coração, mas também de uma mente esclarecida. Isto vela não só para a explicação dos ritos litúrgicos, ams também para a compreensão das realidades do quotidiano.

4. Uma espiritualidade transversal: uma nova espiritualidade toca todos os âmbitos e acontecimentos da vida. Existe como que um “mecanismo de defesa” tendencioso a repetir o refrão “que tem isto a ver com aquilo?…” a afastar o compromisso cristão de ver a realidade (toda) com os olhos de Deus. Até nas trevas se encontra connosco o Senhor Deus (cf. Salmo 139,8). O nome de cristão também será dito nas praças (com muito mais obrigação o de padre ou sacerdote!…). Uma nova tendência de alguns cristãos é também não praticarem o “nome” o “rosto alegre”, debaixo de uma suposta necessidade de “discrição eficiente”. A via é, pois, a da comunicação com as pessoas, realidades, saberes e outras formas de culto.

5. Uma espiritualidade finalística: o prejecto de cada vida está em andamento, seja ele consciente chamado ou não de vocação pessoal à santidade. Viver no mistério do tempo, quer queiramos quer não, confronta-se, mais tarde ou mais cedo, com a contingência da vida e com as suas “questões últimas”. Por isso, a espiritualidade poderá dar um sentido mais profundo ao desenvolver dessa vocação. Sem descuidar o realismo necessário diante das coisas deste mundo, a espiritualidade transporta-nos para uma realidade nova que já está no meio de nós, pela fé, e cuja força salvífica, segundo os Apóstolos Paulo e João (cf. Ef 2,8; 1Jo 5,13ss), podemos experimentar e ver desde já. O “objecto” da salvação é pessoa humana!

Em suma, o paradoxo da novidade continua a confundir-nos com uma mudança sempre do radical, mas também do essencial. A nova aliança que Deus veio instituir e viver connosco em Jesus Cristo, no seu Espírito Santo, é uma aliança libertadora. Como aconteceu no “diálogo” entre o Antigo e Novo Testamentos da Sagrada Escritura, passa a metáfora, Jesus veio desenvolver uma relação de continuidade, de descontinuidade ou ruptura, e de progressão (cf. Pontifícia Comissão Bíblica, Documento para a Interpretação dos textos da Sagrada Escritura). Poderia sereste também o método de uma pastoral de uma “nova” espiritualidade!

Autor:

Padre da Diocese de Viseu