Memória bíblica

Existe também esta memória que é a memória dos acontecimentos do próprio passado. Mas esta não é um simples registo de dados, mas, pelo menos para uma pessoa madura e adulta, significa uma organização desses dados à volta de uma verdade capaz de explicar dados e acontecimentos.

Claro que essa verdade que se pode encontrar por detrás dos acontecimentos está ligada às convicções da pessoa, ao seu credo (filosófico ou religioso que seja). Assim, alguém pode acreditar no destino, atribuindo o que lhe acontece a uma força impessoal e indefinível; ou à sorte e frequentemente à “má sorte”; ou acredita simplesmente em si próprio, atribuindo tudo a si e aos seus músculos.

Mas para quem crê no Deus de Jesus Cristo, a vida passada assume um outro significado e os particulares acontecimentos da vida tornam-se fragmentos de um desígnio misterioso que se vai clarificando, mas sempre a necessitar de uma contínua leitura.

Esta memória é “celebração” de um desígnio que tem uma sequência, na qual Deus está presente, fazendo com que tenha um futuro. É a memória do crente que sabe ler na sua história as intervenções de Deus. Um dia, este Deus seduziu, amou, protegeu, salvou Israel… Hoje, faz o mesmo com cada criatura, por Jesus Cristo.

Então, para “fazer esta memória”, o crente precisa de estar atento não somente aos grandes acontecimentos da sua história pessoal, mas porventura com mais atenção àqueles que em cada dia sucedem como “sacramento” de Deus.

A memória bíblica é activa, porque cria responsabilidade. Ainda que não sejamos totalmente responsáveis pelo nosso passado, somos, no entanto, chamados a assumir um papel de responsabilidade no presente face a esses acontecimentos passados. “Fazer memória” é reconhecer o agir de Deus de forma a exercitar esta responsabilidade.

Enfim, memória bíblica é aliança. Esta é uma categoria hermenêutica, ou seja, interpretativa de toda a vida do crente, a partir do momento em que aceita entrar nessa relação de aliança com Deus. Aquela aliança é um dom, um pacto de amizade e, em Jesus, uma relação filial, a partir da qual Deus nos garante para sempre a sua presença no nosso caminhar.

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