A luz e a sombra

Quanto mais nos aproximamos da Luz, mais profunda e densa nos parece a sombra do nosso passado. Esta parece ser a convicção de quem faz ou fez a experiência da noite escura. Esta, na verdade, não é simples ausência de Deus, mas a fé na sua presença invisível. Quanto mais se abre a nossa consciência sobre os factos do passado pessoal, mais densa e dramática é essa viagem pelo escuro. Esta escuridão não é feita somente de trevas, mas de uma certa confusão, enquanto aquela centelha de luz que, pela esperança da fé, nos vai iluminando pelo vale da busca interior.

Não se entra na noite escura por método, nem esta experiência se propõe como terapia, mas ela acontece quando o crente assume confrontar-se com a Luz, quando assume rever a sua vida à Luz da face de Deus, quando aceita o desafio de avaliar a sua vida pela matriz dos valores do Evangelho. Quanto mais nos aproximamos destes, não só na teoria, mas também na prática, então as sombras começam a mostrar-se e a invadir-nos o espírito, até que aquela Luz nos transforme e nos ajude a encontrar o significado por detrás dessa nuvem escura.

Mas nem tudo é feito de sombras! O que acontece neste confronto é a tendência, inscrita na nossa natureza, de estarmos divididos entre o bem e o mal, que o pecado teima em tornar em abismo. A experiência de noite escura serve para darmos conta do bem que Deus fez na nossa vida, sem darmos por isso, para o reconhecermos e assumirmos quanto de resistência existiu da nossa parte em relação ao Seu amor.

Luz e sombra são polos de um mesmo ritmo pendular, como o é a relação entre o passado e o futuro. Na verdade, o puro presente não existe, senão essa relação que no tempo acontece entre a herança constante do passado e a novidade surpreendente do futuro. Como poderia havr predestinacionisto ou destino, se Deus nos dá este pequenino instante a que chamamos presente para exercermos a liberdade pessoal que configura esse futuro dentro das possibilidades que Deus nos dá?

Para mim, o presente é mesmo um “presente” diante do qual celebro constantemente a gratidão, também diante das angústias. Este presente é feito de algo que não se pode mudar (passado) e algo que nos surpreende constantemente (futuro), salvo a intromissão do previsível. Mas o imprevisível também faz parte do jogo! Deus não será somente um simples espectador nesta “mesa de jogo”, mas Aquele que sabendo de todas as “cartas do baralho” nos vai orientando, por dentro e por fora, a jogar as mais significativas, a partir das nossas faculdades humanas.

No entanto, não é fácil estar perto da Luz. Implica também o pêndulo do medo e da coragem, que muitas vezes nos faz regredir ao jogo individualístico mais cómodo, que nos afasta da afronta competitiva. É hedonisticamente mais cómodo estar longe da Luz, mas mais seguro para a felicidade perseguir-lhe a fonte.

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