«Fazei o que Ele vos disser» (Jo 2,5)

Ao meditar no 2º Mistério Luminoso, enquanto a “música” das avé-marias serviam de “fundo” à imaginação da cena das bodas de Caná, reparei que grande parte da narração se dedica a indicar o que os discípulos hão-de fazer, por conselho de Maria e pela ordem de Jesus, para que a festa teha o vinho. Entre a indicação “enchei as talhas de água” (Jo 2,7) e a ordem “tirai agora e levai ao chefe de mesa” (Jo 2,8b) o que o texto nos leva a contemplar antes do milagre “provado” pelo chefe de mesa é a colaboração humana: “eles encheram-nas até cima” (Jo 2,8a).
Muitas vezes podemos correr o risco de não só pensar mas também de desejar, na vida espiritual, que a salvação que Jesus realiza em favor da nossa humanidade seja um acto extraordinário e mágico, que se dê conta directamente com os sentidos externos. Também podemos ser cépticos o suficiente para ignorarmos que Ele pode agir, pela força do seu Espírito em nós, através das nosss faculdades humanas, com as nossas acções.

Nas bodas de Caná, os discípulos encheram as talhas de água e… pronto! Podem servir! Não houve um compasso longo de espera, como que se ainda fosse preciso uma grande bênção. O conteúdo do Mistério no qual o Pai, pelo seu Filho, no Espírito, nos quer revelar já está pronto e vai-se manifestando aos olhos da nossa fé, através daquilo que o nosso interior vai sendo capaz de captar, ainda que parcialmente por causa da nossa subjectividade, daquilo que contemplamos fora pelos sentidos, nas pessoas e acontecimentos.

O que é importante e que o acontecimento de Caná nos mostra é que, sendo a acção de Jesus sinal do desígnio eterno do Pai já desde sempre preparado, então cabe-nos fazer a nossa parte: preparar e encher as nossas talhas… É preciso ter uma talha bem preparada para receber a graça do Senhor, os valores evangélicos. Pode acontecer que a nossa predisposição em receber essa graça, por inconsistências ou motivos às vezes inconscientes, esteja debilitada. Cada um de nós é chamado a tomar consciência do que procura e faz de forma consciente, de forma livre e de forma responsável. O juízo final e a oportunidade de participar nas bodas eternas será marcado pela forma como utilizámos os dons que recebemos conscientemente, que nos levaram a agir livremente, na responsabilidade.

Antes de servirmos o “conteúdo novo” das talhas na festa das nossas vidas, precisamos de descobrir: o que nos impedirá de ser “talhas novas”, não só a nível moral, mas a nível da nossa maturidade e das forças ocultas do nosso ser, estas muitas vezes radicadas nas relações interpessoais que interagiram nos acontecimentos remotos da nossa infânica.

Acreditar na oração e na misericórdia de Des significará reconhecer que Ele pode potenciar, para benefício nosso e dos que vivem à nossa volta, o que tem a ver com as próprias pessoas, a família, o trabalho, a sociedade, a comunidade… para um mais eficaz testemunho. Pois, o que pode fazer a diferença de uma vida cristã que transpareça melhor aquela festa relatada por S. João será a de uma transformação de uma santidade subjectiva (é por onde começamos sempre: pela nossa aneira de pensar do que são as coisas) numa santidade objectiva (o que realmente Deus nos oferece para nos atrair para Si). Para que a eficácia seja maior e também maior seja a objectividade da santidade, precisam de ser objectivamente libertas as forças que ainda não são livres em nós, pondo tudo ao serviço dessa abertura à acção de Deus que quer encher cada uma das talhas na razão da sua medida criadora, através de uma maior interiorização dos valores evangélicos.

Agora estou a encher esta “talha” de água que é este post. Seja Jesus a decidir se o seu conteúdo se há-de transformar em vinho de alegria ou salvação para alguém que viva triste e sem sentido, ou cansado, sem ânimo para entrar na festa.