"Pedra angular" para a construção espiritual

Estamos prestes a “despedir-nos” deste Menino Deus que baixou à nossa vida na Liturgia, para dar lugar à celebração dos seus diversos mistérios da sua “vida adulta” e pública.

O estudo da relação de interdependência e diferença entre teologia espiritual e teologia dogmática veio dar-me a resposta a uma experiência espiritual ainda não entendida até este momento, mas que deixara em mim um rasto de emotividade inexplicável:

Numa das celebrações desta quadra natalícia, enquanto me preparava na sacristia de uma igreja para a celebração da Eucaristia, veio uma senhora depôr-me nas mãos a pedra com a imagem de Jesus Menino colada que se vê aqui ao lado. A minha primeira reacção foi perguntar-lhe se queria que eu a benzesse; mas logo ela me afirmaou com um gesto simples que era um pequeno resentinho para mim. Fiquei emocionado, tendo em conta a singularidade do presente. Levei-o para o altar e depu-lo lá até ao fim da Missa. Trouxe-o comigo, à espera que tão simples experiência espiritual se viesse a manifestar nalgum pensamento ou formulação espiritual.

Quando pensamos na expressão “pedra angular” como símbolo de Jesus Cristo, vem-nos logo à cabela uma pedra com todos os lads iguais, perfeita, razoavelmente uma imagem correcta para afirmar Cristo como fundamento do edifício espiritual que é a Igreja. No entanto, a teologia espiritual, assente na experiência espiritual cristã, afirma-nos que essa tem uma originalidade que é manifestada, por sua vez, nas seguintes características:

1. A percepção espiritual é sempre parcial, da qual deriva uma sempre fragmentária contemplação que forma vários tipos de devoção. Aquele que por meio de uma fé viva toca num aspecto particular do Mistério, entra em contacto do Mistério inteiro e adere a Deus, fonte única do desígnio de salvação.

2. O que torna essa experiência parcial ao mesmo tempo autêntica é o facto de ela ser fundada pela fé que, pela sua natureza como dom de Deus, abraça a realidade para a qual tende. A fé náo é somente nem principalmente acto da inteligência que toma consciência de um determnado conteúdo objectivo: é dom de Deus, dom vital graças ao qual o homem adere à totalidade do Mistério e a Deus como fonte da Revelação.

3. A linguagem espiritual apoia-se normalmente, por consequência, na linguagem da fé. É aqui que entra a complementaridade da teologia dogmática, oferecendo sempre uma formulação correcta e progressiva para a compreensão da experiência que é objeto da teologia espiritual. A pessoa que sente intensamente um mistério particular esforça-se por explorar-lhe a riqueza e de condensá-la em expressões essenciais. Nascem assim as devoções como configuração pessoal da vida espiritual.

4. A assimilação do Mistério da fé é sempre prograssiva. Ainda que a raíz e a substância da vida espiritual á comum a todos, a evolução da vida espiritual é difersa, porque diverso o exercício das virtudes teologais e sobretudo a caridade. Tal realização depende da liberdade humana, quer quanto à cooperação à graça de Deus, quer quantos aos pecados que destroem ou retardam o progresso. Não basta, para que o progresso se actue, estarem definidos o fundamento e o fim da vida da fé. São, pois, diversas as formas sob as quais Cristo se faz conhecer e ser objecto de imitação (actividades apostólicas, oblação, oração, pobreza, virgindade…).

Se o fundamento da vida espiritual, objecto formulado ela teologia dogmática, é o mesmo, as experiências concretas que o fazem adquirir consciência são diversas, conforme o ser e cicunstâncias de cada um. Assim, apetece-me concluir que cada um de nós é uma pedra de uma construção, com lados todos eles diferentes, onde Cristo aparece conhecido, compreendido e aceite desde vários ângulos. Cada um de nós é convidado a sentir-se parte de uma construção onde os diversos lados, ainda que mostrando ângulos rectos e outros menos rectos, servirão para se relacionar com as outras “peças” pessoais, para darmos todos lugar à “pedra mais angular”, por Cristo idealizada desde o princípio.