A esperança e o desespero

A esperança e o desespero não são um par de opostos. São peças de um mesmo tecido, constituídos do mesmo material e retalhados das mesmas circunstâncias. Cada um de nós, na vida, nos encontramos diante da decisão de escolher uma ou outra, no variar das situações.
O girassol, que na sombra continua a voltar a sua cabeça para o sol, é o “santo padroeiro” daqueles que desesperam. Quando a escuridão desce sobre a alma, é tempo de fazer como esta flor, de voltar a procurar qualquer coisa de bom naquele momento da vida, para aí encontrar um pouco de conforto.
Assim, valem a música, um hobby, os amigos, um pequeno pensamento, o próprio trabalho ou a vocação – não o álcool ou as noites selvagens, ou as imersões na dor que nos pode estar a matar. É a coisa pior, recavar a dor, em vez de saciá-la com uma pequena alegria ou conforto que nos renova. Dizia Erasmo: «Faça-se luz, que as trevas desaparecerão pr si».
A diferença entre a esperança e o desespero é que este último forma um hábito mental, enquanto que a esperança cria uma qualidade da alma. O desespero dissimula a nossa forma de ver as coisas, torna-nos suspeitosos diante do futuro e negativos em relação ao presente. Leva-nos, sobretudo, a ignorar as próprias possibilidades de salvação ou, pior, leva-nos a querer ferir porque fomos feridos.
A esperança, por seu lado, toma a vida segundo os seus próprios termos ou limites, sabe que em qualquer coisa que aconteça reside Deus e espera-se que, não obstante as reviravoltas e os desvios, ela trará, por fim, algo de bom àqueles que sabem vivê-la conscientemente, a quem vive a vida profundamente.