Publicado em Integração Psico-Espiritual

O dom da esperança: o que fazer dele?

A autora de romances de ficção Margaret Weis escrevia que «a esperança é a negação da realidade». Não concordo com ela!
A realidade é a única coisa que pode nutrir a esperança. É o terreno onde ela cresce e nos transporta para uma meta. A esperança não se baseia na invenção de um hipotético futuro melhor, mas está radicada na capacidade de recordar um passado nem sempre fácil – nosso ou dos outos – mas que compreende novos significados. As recordações são o “viveiro” esperança!
As recordações são a única prova de que é po0ssível sobreviver a este ou àquele acontecimento, porque, pois, conseguimos viver da sua recordação, que em sim nos traz o legado da solução: o significado contemplado no presente.
A esperança reside na precedente recordação da bondade de Deus manifestada nos nossos confrontos com um mundo que muito nos dá e muito exige de nós. Se Deus nos criou neste mundo, não foi para somente nos lamentarmos do que nele é exigente, mas para experimentarmos o impossível a partir do Seu possível infinito e eterno.
Isto implica que a oportunidade de um novo ano não seja assente em propósitos desligados do passado, mas em continuidade com ele. Haverá muito que renunciar e muito que converter, substituindo, mas até isso terá que ser feito no assumir o passado como ele é, aproveitando suas forças escondidas nele. A graça divina não é um “remendo” ou um remedeio no “tecido” das nossas vidas!… Mas é, antes, proviência e projecto eterno manifestado no tempo em que as nossas vidas estão inscritas.
Por outro lado, a esperança não é qualquer tipo de optimismo ilusório ao qual recorrer porque simplesmente porque pouco podemos solucionar face à dureza da realidade que ameaça o nosso coração. Os amigos partem e abandonam-nos. Os afazeres são rotulados e “destruem-nos” financeiramente. O amor não é fácil de alimentar e nalgumas ocasiões acaba por enfraquecer. Os desejos reduzem-se ao pó. A carreira profissional ameaça ruir. A doença faz-nos débeis. O mal existe. Mas através de tudo isto a esperança parmanece, apesar de tudo, uma escolha.
A esperança depende da nossa decisão de acreditar num Deus que se espera nas bermas desta estrada escura para Se encaminhar connosco à procura da luz. Assim, podemos sempre ir à procura de novos amigos, tentar novos afazeres ou dar mais entusiasmo ao que fazemos, sem o calculismo financeiro, pondo amor no que fazemos, acreditar no amor concreto diante das pessoas a quem nos confiamos, acreditar que na doença se manifesta a glória de Deus e que, apesar da existência do mal, o bem é maior e teima em vencer com a disposição da nossa vontade.

Autor:

Padre da Diocese de Viseu