Publicado em Integração Psico-Espiritual

A tua memória está "grávida" de Natal

Presépio no Vaticano 2007Quem passa pela Praça de São Pedro, de há um mês para cá, vai contemplando o crescimento do grande presépio de Natal. É uma construção que dá tarefa a técnicos qualificados, engenheiros de arte, para que a Igreja presente em Roma possa, nos dias do Natal, adorar o Menino nesta forma de arte natalícia.

Tenho-me perguntado: porque será que não nos deixam acompanhar a construção deste presépio, sem que tenham de o realizar de forma velada?!

À procura de uma resposta lógica, parece que, à primeira vista, é para não “distrair” os que o constroem ou, então, para não desesperar quem tão depressa o quer contemplar.

Na verdade, a espera e a vivência das bênçãos proporcionadas pela Vinda do Senhor não são uma realidade fugaz. O Natal é uma realidade que tem raízes e cresce no nosso interior: do mundo, das pessoas, da Igreja… Os seus frutos aparecerão, embora não se vejam facilmente as raízes, o tronco e a ramagem. Os valores do Natal crescem em contraste com as realidades do mundo. É o sobrenatural a irromper do natural, de forma velada, escondida, até que o Sol desponte no Dia.

Assim, o Natal propõe-se como um mistério interior, no interior da pessao humana, quelquer que ela seja. Mais tarde ou mais cedo, em qualquer idadae da razão espieitual, a pessoa é chamada pela força do que vai acontecendo no presente a revisitar a sua história, a sua memória pessoal. Penso que é lá que está o segredo mais maravilhoso do Natal:

Descendo à nossa pequenez, à nossa infância, teremos oportunidade de nos encontrar com Quem lá está: o Emanuel, Deus-connosco, desceu à nossa humanidade. Por isso, o adulto na fé precisa, para viver como filho de Deus, precisa de descer lá onde o Verbo incarnado desceu: à simplicidade, à pequenez, uma vezes positiva, outras dramática, da pessoa humana concreta. Parece-me ser esta uma das interpretações da palavra se vos tornardes como crianças… (cf. Mc 10, 15).

Conhecer a história pessoal, não para viver nela, mas para recordar as maravilhas que o Senhor aí escondeu é fazer memória de fé, é deixar que, no presente, germinem essas sementes do Verbo que o Espírito inefavelmente “teima” em desabrochar. Ora, isso não acontece sem a nossa liberdade… Para que o homem participe no desvendar progressivo do seu Mistério chama-o a colaborar também na busca progressiva do seu mistério pessoal, humano.

Gostamos de contemplar fora (no presépio) o que, enfim, a fé procura contemplar dentro. E que esta correspondência nos encha de alegria. Não deixes de procurar dentro de ti as “peças” do “teu” presépio!

Autor:

Padre da Diocese de Viseu