A Morte e a Esperança

Escrevo este post no dia em que o meu irmão Padre Mário Figueredo é restituído à terra, depois de um ataque cardíaco acontecido ontem, 3º Domingo do Advento, dia da alegria. Não sei a causa daquele incidente, se é que tem causa. O que sei é que, como dizia S. Bento, na sua Regra, que «tenhamos cada dia presente diante dos olhos a iminência da morte».

Esta atitude cria uma grande vigilância no coração e dá realismo e profundidade à existência: para onde são dirigidos todos os meus pensamentos e desejos? Contactar com o mistério da morte, com toda a sobriedade e vigor, para além do sofrimento que ela causa, tem uma eficácia purificadora e, por si, não deprimente.

Vida e morte pertencem-se um à outra: não há vida sem morte e morte sem vida. De facto, quando nasce uma criança, esta é imediatamente um ser mortal. Podemos remover este pensamento da cabeça, mas mais tarde ou mais cedo, reaparece de novo, cada vez mais forte que antes. A espiritualidade monacal escolhe ter sempre presente diante dos olhos a iminência da morte, sugerindo que ela não nos surpreenda, nem a própria, nem a dos outros, nem a dos entes mais queridos.

Poderíamos pensar que, para nós, seria melhor morrer antes que cessar de viver. No meio da nossa vida impõe-se com força renovada a questão do nosso ser mortal: num belo dia damo-nos conta que o nosso corpo já não responde como antes. O atleta não se pode render, mas dá conta que o seu corpo já não é capaz de fazer os mesmos recordes. Posso ignorar, mas o meu corpo e a minha memória continuam a recordar-mo.

A psicologia dá-nos, neste sentido, uma boa ajuda, definindo-nos a morte como o último destino natural do homem, que se diferencia de todos os demais animais, por conhecer a própria morte e por transcendê-la no seu pensamento. Por isso, é importante psicologicamente que o facto da morte suscite os problemas filosóficos-religiosos últimos acerca da transcendência, o sentido da existência e a escatologia (teologia do “já” e do “ainda não”).

A Esperança confiante e vigilante proposta no Advento continua a ser a melhor forma de caminhar para este mistério. Como nos tinha dito, o Senhor vem, de facto!

Fica aqui a minha simples homenagem ao meu irmão P. Mário Figueiredo, pela sua oblação, ontem como hoje, diante do Senhor.

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