A misteriosa "gramática" de Deus

É para o meu pensamento um encanto pensar que Deus se sirva das coisas mais pequenas e banais para se “meter” com a humanidade e levá-a a decifrar nessa linguagem ao mesmo tempo concreta e misteriosa a sua mensagem de amor.

(Não quero aqui subestimar a Sagrada Escritura e sobretudo a pessoa de Jesus Cristo, mas imaginar como é que Deus fará para que, no Espírito Santo, possamos escutar e viver a Sua mensagem.)

A antropologia, hoje, superando uma psicologia baseada simplesmente do determinismo do conflito humano (Freud), tenta desenvolvê-la, dando um passo em frente no avizinhar-se com o mistério do ser humano. Este passo é possível com o recurso à área da afectividade, da emoção e dos sentimentos. «Conhecemos a verdade não só através da razão, mas também através do coração» (Pascal).

Com o acesso àrea da afectividade, a psicologia pode, segundo o método fenomenológico, ajudar à recuperação do mistério do homem, tarefa que é complementar àquela da reflexão, objectiva, teórica. Torna isso possível levando o sugeito a um nível pre-reflexivo. Esta aventura, muito para além do esforço cognitivo, permeia as componentes do limite e do infinito, da grandeza e da fragilidade, do ser e do não ser, que constituem a pessoa como mistério. Só com a mediação do coração humano é que a afectividade nos pode aceder a estes dados.

Há, pois, livre dos conflitos do desenvolvimento humano, uma “esfera autónoma” do “eu” que “navega” entre o nível puramente vital, finito, e o nível espiritual, infinito, para o qual o homem é atraído.

– Quais serão, então, as áreas de mediação entre este nível “vital” da pessoa e aquele que, attravés do espírito, abre para universalidade, para o infinito?

Platão apresenta-nos o thymos, ou seja a área afectiva que é bem diversa da força vital que é a necessidade. É o desejo humano que se exprime na área das paixões e, mais especificamente, nas três paixões que envolvem o ter, o poder e o valer. Nestas paixões existem conexões entre o infinito e o finito, em objectos específicos, no mundo, nos outros. O ter, o poder e o valer são três áreas de mideações e também de conflito entre o sujeito e o objecto (eu, Deus e os outros).

Na procura, em qualquer coisa de limitado, de ter, poder e valer, o homem é atraído, no fundo, pelo infinito, exercend a sua procura de um mundo ilimitado. Deus lá sabe como é que nos cativa: os amigos e os inimigos, as coisas, os acontecimentos, os limites, os objectos, os sorrisos, as lágrimas, a solidão, a alegria, a presença, a oração, o trabalho, o talento, um animal de estimação, enfim, as circunstânicas da vida, somente para elencar aleatoriamente, elementos insuspeitáveis através dos quais, nos foros do material e do espiritual, nos atrai, chamando-nos para Si.

Onde está, afinal, a distinção entre o sagrado e o profano: no ser ou no querer?