Queira eu acompanhar o burro na realidade da metáfora!(Conto de Natal)

Têm muita pressa! – diz o burriquito guiado por José, acolhendo Maria no seu dorso arrastado ao chão pela força da gravidade.

Tinha de se apressar, eu não podia queixar-me. Havia uma aventura sem igual a percorrer. Sentia-o no peso misterioso de Maria e na corda que tinha agarrada ao pescoço. Nada de habitual, como nos trabalhos da lavoura a que estava habituado. A pressa de José não era daquelas pressas que denunciam a vinda do sol árduo que não se pode suportar ao trabalho do meio-dia, mas de uma estrela que trazia como que a sobrevivência para toda a humanidade. Era burro e sentia-o na corda de José! Conto-vos a aventura que percorri e a viagem que me parece, hoje, qualquer burro ser capaz de percorrer e entender, se quiser avaliar a força das suas cordas.

Na partida para aquela viagem estranhíssima, dei conta que a cara de José estava estremunhada. Parece que tinha tido um pesadelo. Mas o cuidado com que fazia subir Maria para cima de mim, talvez fosse um sonho, daqueles de se ter acordado, que fazem realizar coisas grandiosas em atitudes simples como carregar um burriquito para uma viagem simples. Bem, mas veremos que esta não era assim tão simples.

Saímos já era noite, porque é de noite que acontecem muitas vezes os sonhos mais importantes, aqueles que nos fazem andar todo o dia a pensar no que eles querem dizer. José não tinha mapa nas nãos, a não ser aquele sonho na cabeça que certamente o ia guiando. Sentia-o na firmeza com que me guiava com aquele cordel. Mas a noite era densa, era preciso não haver dúvidas no caminho. A aventura tinha uma meta traçada e nem todas as setas estavam inscritas no caminho. Alguns passos de José denunciavam aquele medo que até a mim me fazia parar. Descansava. Mas mal podia fazer chegar o sono às pálpebras dos olhos, pois alguma estrela estaria a denunciar o caminho ao dono que me guiava. Eu já não conseguia ver o caminho, a não ser pela fé que o meu dono me transmitia pela força imposta às cordas.

Quando comecei a ver que as distâncias não tinham nada a ver com as minhas capacidades, tive a vontade de perguntar ao meu dono – assim ele me entendesse! – se me tinha no seguro, a mim a à sua Imaculada esposa. Mas lá fui suportando a dureza do caminho, não sei iluminado por que graça. Coragem não me faltava, contando que José não deixasse a corda com que me guiava. A mim, bastava dar-lhe a força e o entusiasmo. Para não ser um trabalho daqueles a que estava habituado, é porque estava destinado a um feito sem igual, para um animal da minha espécie.

Eis que chegámos uma cidade pequena, um oásis para as minhas pernas já cansadas e miragem para os meus olhos sonolentos. Muitas casas, algumas não denunciavam gente, outras pareciam que tinham o interruptor da luz na porta: ao bater ela apagava-se! O caminho tinha sido tão urgentemente longo, para chegarmos a uma cidade e termos demorar na esperança. Algo de divino estava para acontecer. Percebia-o no punho de José ao bater das portas e nos grávidos soluços de Maria.

Então, veio estacionar à esperança alguém que vestia a humildade. Não tinha casa, mas uma gruta que tinha uma tabuleta com a inscrição caridade. Era ali! José parecia não precisar mais daquela estrela misteriosa que deveria subir aos céus para a outros indicar o caminho. Eu estava agora livre, podia descansar, já as cordas não me apertavam o pescoço. Mas… não sei!… Sentia-me de novo preso. Eram outras cordas… feitas de desejo! Desejo de estar ali dentro, com Maria e José e… Quem sabe? O meu tão esperado alimento!

Ah! Que belo Alimento!… Não sou capaz de o conter de tão rico ele ser. Basta-me aquecê-lo, para a outros ser dado a comer.

Aí vêm eles, os pobres pastores, a voz dos anjos pela escuta os guiaram… Aqui estão! Aquele adro diante da gruta parecia-lhes reservado. Não pareciam terem comprado bilhete algum que lhes desse acesso a esta primeira fila. Para o espectáculo desta festa interior, basta a vontade que responda com a fraternidade ao amor.

No fim, pus-me cá a pensar… (Afinal, os burros também sonham!) Dizem que é Natal todos os dias, mas bastou um dia para que de facto houvesse Natal. Natal, de verdade, é feito de viagem, de sonho, de fé e de coragem; é a meta da esperança, a resposta da humildade e a estalagem da caridade; o desejo de verdadeiro alimento e a manjedoura da fraternidade.

Quem me dera, ao menos, ao fim da vida, ter feito a experiência daquele simples animal. De falar não sabe nada. Salve-se, pois, a metáfora!

Sonho, Fé, Coragem, Esperança, Humildade, Caridade, Desejo, Alimento, Escuta, Vontade, Fraternidade – podem ser os ingredientes do teu tão esperado… Feliz Natal!

P. António Jorge

%d bloggers like this: