O dom da coragem

A coragem não é uma qualidade assim tão rara como muitas vezes se faz crer, para absolver da responsabilidade de lhe dar prova, sendo apresentada como virtude não cultivada que só algumas pessoas fora do comum conseguem fazer brilhar em circunstâncias dramáticas.

A verdade é, pelo contrário, que a coragem é o que consente às pessoas comuns de viver um dia depois do outro. Não é uma acção de que se faz prova: é uma forma de ser. É a força espiritual que nos guia na confusão. Não é de maneira nenhuma mais rara que o medo, dado que é “filha” dele!

A coragem está ao alcance de todos: das crianças que se esforçam por crescer diante do desafio da diversidade, dos idosos que procuram a audácia diante do envelhesimento e a falta de saúde, dos jovens que lutam no meio das convenções sociais que lhe permitam viver uma vida consolidada… Todos nós, cada dia que passa, é chamado, de um modo ou de outro, a dar provas de coragem. não se trata, pois, de uma virtude excepcional, mas somente aquilo que pode fazer a diferença entre o mundo do bem e o mundo do mal. Aquilo que nos impele a meter em discussão todos os pressupostos da existência, a refutar o inaceitável, a confrontar-se com o opressor e que, se aceitamos fazer tudo isso, leva-nos enfim a mudar o imutável.

A coragem é o complemento da honestidade, pela qual ser fiel ao próprio carácter é mais importante do que ser aceites. Tem a sua palavra, clara e forte, lá onde o silêncio é a chave de acesso à aprovação dos demais. No barulho indefinido de uma conversação mundana que trata com indiferença temas de relevância social, é a única voz que tenta lançar um debate sério. A verdadeira coragem (honesta) não aparece de imporviso, deriva da nossa maneira de pensar e de viver…

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