Publicado em Integração Psico-Espiritual

Tocar a "harpa" da realidade

É frequente escutar um músico mais ou menos virtuoso capaz de tocar um instrumento de olhos fechados. Ouvi até falar de alguém que conseguiu o curso superior de piano em Paris sendo invisual. Coisa rara, senão única. Executar música sem a audição é um pouco mais difícil, mas até esta facto insólito pôde acontecer com o tão conhecido Beethoven, o músico generoso por compôr para outros ouvirem.

“Transpondo” esta arte de compor, interpretar e escutar para a vida, imagino que o ser humano possa ser comparado a uma “harpa”, cujas “cordas” seriam os sentidos, tocadas por forças vindas quer do seu interior, quer do seu exterior.

Na vida espiritual de muitos cristãos escuta-se a inquietação diante de Deus: Porque não Te oiço? Porque não Te vejo? Porque não te cheiro? Porque não me falas?

Muitos sentem-se incapazes de estabelecer um contacto com Deus. Os seus sentidos estão paralizados, atrofiados ou mesmo “desligados”, incapazes de apreciar os sinais que nos transportam ao Criador do mundo. Trata-se, pois, de abrir estas “janelas do coração” que são os sentidos, para podermos comunicar com Deus, com os outros e connosco próprios.

A palavra sentido ou sentidos é capaz de exprimir diversas realidades:
1 – Em primeiro lugar, o homem “sente”: sensibilidade, sensação, sentimento, sensualidade, ressentimento… fenómenos a partir dos quais o homem percebe uma realidade complexa;
2 – A palavra “sentido” pode também significar direcção, orientação no espaço;
3 – A terceira possibilidade é entender aquela palavra como “significado” para a vida, para as relações, para as coisas.

Através dos sentidos, o homem percebe, toma uma direcção, conceptualiza, faz discernimento: toda a nossa consciência vem dos sentidos, tanto a mais empírica como a mais espiritual. É através dos sentidos que nos construímos a nós mesmos: odor e gosto domesmicam-nos, por exemplo, o discernimento, a descoberta da diferença; a vista e o ouvido consentem-nos de colher a realidade no seu conjunto (a vista a simultaneidade e o ouvido na dinêmica que implica o tempo)…

Dizer “sentidos” significa evocar um corpo e uma psique em funcionamento, um ser humano vivo na sua singular identidade. Para nós, cristãos, o corpo não é um túmulo, mas um homem vivente à imagem e semilhança de Deus; o corpo é lugar, é tempo, é morada de Deus através do seu Espírito. Os sentidos humanos, por isso, não devem ser negados nem desprezados, mas “harpejados”, para que a música agradável do Reino de Deus seja desde já tocada em nós.

Autor:

Padre da Diocese de Viseu