O desejo e a vida espiritual

Um equívoco a esclarecer.

Falar de desejo na vida espiritual poderia levar-nos a mal-estar, tendo como provável a possibilidade de ter que fazer com oque parece um “inimigo”: se, de facto consentíssemos plena liberdade aos desejos, que poderia acontecer? Onde acabaríamos?

Deixar-se andar pelos desejos poderia levar-nos a uma vida “sem travões”, tomada pelos impulsos, contrária aos valores escolhidos. É por estas razões que o desejo foi muitas vezes olhado de forma suspeita e interpretado na linha de “não desejes e terás uma vida tranquila”.

O desejo pode também invocar os sofrimentos mais fortes recebidos na vida, um afecto não correspondido, uma amizade traída, um gesto incompreendido… de novo a conclusão que uma vida sem desejos seria mais tranquila. Muitas propostas espirituais, como o budismo, tentaram solucionar a questão do desejo com a convicção da imperturbabilidade total apagando o desejo, considerando-o como a raíz dos sofrimentos e do mal. Até a mentalidade iluminista (Kant) propunha, subliunhando a razão sobre aquele: “Tem a coragem de te servir da própria inteligência. É este o motor do iluminismo!”. É o modelo da vida de sucesso tanto aprogoado na Europa, que, no entanto, viu nestes últimos tempos cair a sua racionalidade…

Mas será assim?!

Resolvemos este “enigma” na relação entre o desejo e a vontade, sendo estes dois elementos fundamentais na maturação da vida espiritual:

O desejo dá o calor, conteúdo, imaginação, jogo infantil, frescura e riqueza à vontade; a vontade dá auto-direcção, a maturidade do desejo. A vontade tutela o desejo, permitindo-lhe continuar sem correr riscos excessivos. Mas sem desejo a vontade perde a sua linfa vital, a sua vitalidade e tende a extinguir-se na auto-traição. Ter só vontade sem desejos é ser estéril. Ter só desejo sem vontade é ser pessoa forçada, prisioneira, infantil que como um homem-continuado-criança pode tornar-se um homem robot (Cfr. R. May, 1971).

Já S. Tomás recordava que “a razão impõe-se às tendências do desejo e de agressividade não mediante um poder despótico, como o do patrão sobre o escravo, mas mediante um poder político ou real, orientado a homens livres que não são inteiramente submetidos ao comando (Summa Theologiae).

O primeiro passo, portanto, para ser compreensivo para com os outros é ser-se compreensivo para si mesmo, acolhendo o património da própria afectividade. Desejos e afectos constituem, de facto, o elemento fundamental da vida psíquica, intelectual e espiritual, são a fonte de cada actividade. Esses parecem ser, à vista da racionalidade formal, um conjunto caótico. Porém, são uma realidade basilar e necessária para tornar a vida interessante e “saborosa”. O mesmo S. Tomás dá importância ao desejo-amor na sua função selectiva: Ubi amor, ibi oculus. Onde está o amor, está também o olhar.

Aprendamos com o homem bíblico a sonhar a vida, exercitando a vontade para, com a força da graça de Deus, “metermos mãos à obra” em colaboração com a Nova Criação.

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