Vigilância sobre si próprio: uma "casa" para edificar e dedicar!

A Festa da Dedicação da Basílica de Latrão, neste 9 de Novembro, serve de “parábola” ao tema da vigilância. Com brevidade, porque o tema daria para um tratado espiritual, aponto somente algumas considerações sobre o que poderá implicar a vigilência e atenção sobre si próprio do ponto de vista psicológico e espiritual.

O tema da vigilância sobre si, como atitude necessária ao homem de fé, é invocado muitas vezes por Jesus no Evangelho (Lc 21,36; Mc 13,33-37; Mt 24,42-51…) e nas Cartas (1Cor 16,13; 1Pt 5,8; Ef 5,15; Col 4,17). É um clássico da espiritualidade cristã e dos textos ascéticos.

É sem dúvida que se alguém quiser ser verdadeiramente livre, e não sobretudo guiado pelos impulsos do momento, não possa senão ser vigilante sobre as moções do próprio espírito e sobre os dinamismos do próprio psíquico. Não é possível ser fiéis a qualquer projecto sem vigiar sobre si próprio e sobre a correspondência das próprias escolhas com o projecto que nos foi dado. É precisa uma sábia atenção às seduções que, mesmo sendo boas, podem distrair desse ideal. A vigilância é o pressuposto para escolhas que sejam fruto de discernimetno atento. «Uma ascese assim rejuvenesce o sistema nervoso, unifica a mente, ajuda ao recolhimento na oração» (C. MARTINI, Sto alla porta, 52-53).

Podemos, pois, distinguir dois tipos de vigilância:

1 – a vigilância como atenção aos estímulos externos (pessoas, coisas ou situações) que podem influenciar negativamente o funcionamento da nossa personalidade; e
2 – a vigilância sobre os estímulos que vêm do interior (impulsos, fantasias, necessidades…).
Ambos os tipos de estímulos provocam reacções, “acordam” desejos, suscitam tensões mais ou menos fecundas no normal funcionamento da personalidade, afrontados ou mantidos sob controlo.

A vigilância requer, assim, um controlo das portas da “casa” do nosso “eu”. Naquela casa em que entra tudo, sem algum controlo, é certamente difícil viver. O abrir e o fechar das “portas” e “janelas” é, pois, um exercício que requer equilíbrio: guardar os sentidos externos – olhar e ouvir, sobretudo – e os sentidos internos – pensamentos, sentimentos e vontade – permite edificar a nossa “casa”, sem estar vazia por dentro, mas pronta para acolher, mas também ponto de partida e de chegada na nossa “viagem” pela experiência interpessoal. O amor ao próximo não nos pede que exponhamos tudo o que está na nossa casa, mas pede-nos força e liberdade suficientes para que seja autêntico.

Do ponto de vista psicológico, vigiar implica um próprio conhecimento sobre a forma como nos “organizamos” interiormente, a dinâmica que nos faz pensar, sentir e agir. Implicavigiar as “portas” e janelas” mais vulneráveis em nós. Quanto mais consciência, mais energia profícua para utilizarmos no nosso projecto de vida. Não esquecer de diferenciar, porém, a sã vigilância equilibrada que confere aquela energia da hiper-vigilância patológica que afasta da realidade, dos outros e bloqueia o crescimento.

Mas a psicologia não basta! É Deus que move o coração do homem para as verdadeiras metas da vida. E o coração só se move se ama e o amor não pode ser imposto. É preciso que o coração seja fortemente atraído por qualquer coisa, para que vigie sobre o tesouro que se encontrou e se teme perder. Por isso, a espiritualidade apoiada no Evangelho, sugere-nos, para um amor sempre mais autêntico e pleno, pra Deus e para os irmãos, propõe-nos um modelo: o próprio Jesus fala da vigilância como espera amorosa do esposo que deve chegar, mas que não se sabe como e quendo chegará (cf. Mt 25,13). Quem não é vigilante pode perdê-lo!

A psicologia não ajuda a conhecer o momento no qual se podem apresentar aqueles desejos e necessidades que nos afastam do esposo. No entanto, pode-nos sugerir “mecanismos de defesa” mais maduros no afrontar da realidade que, numa perspectiva de integração psico-espiritual, poderiam ser os seguintes:

1 – a humildade, pois não existem soluções definitivas para todos os problemas na luta quotidiana que temos de afrontar;
2 – a confiança sempre renovada na obra do Espírito, para que torne mais consciente dos “inimigos” que existem dentro e fora de nós;
3 – a consciência da limitação das nossas forças humanas, não se tratando de reprimir ou eliminar completamente aquilo que nos perturba;
4 – a invocação da insubstituível ajuda da graça de Deus. Será esta, enfim, através do exercício livre da vigilância ou do controlo, a força que edifica esta “casa” destinada a ser dedicada a Ele e aos irmãos!

Para aprofundar:
BRESCIANI, C., «Vigilanza e attenzione su di sé: il versante psicologico», in: Tredimensioni 2007 (4), pp. 266-274.

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