A memória humana: função, tipos e vírus

Querendo aqui apelar à função da memória como elemento constitutivo da narração.

A narração entra na psicoterapia como catarse ou purificação da palavra. Contar ou contar-se desbloqueia tudo o que estava rígido u gelado na vida de uma pessoa, através de um núcleo da memória mais ou menos traumático e eventualmente patológico.

A função da memória é a de recuperar o que foi vivido, para impedir que a história vá para o esquecimento ou para o inconsciente. É o que nos torna capazes de «ler e escrever» e depois narrar a própria vida.

Existem dois tipos de memória: reprodutiva, que reproduz os factos tal e qual estão fixos na mente os rostos e lugares, mas sem alguma nova interpretação; e a memória significativa, que descobre e dá significados novos àquilo que essa volta a chama ao coração e à mente.

No entanto, a memória também tem os seus vírus! Por exemplo: a memória ingrata, parcial, superficial, lamentosa, ferida, depressa, enraivecida… que, em todo o caso, necessita de formação. É a recordar que aprendemos a educar a memória.

Daqui concluo a importância da meditação sobre os factos da nossa vida, recordando-os. Uns trazem os outros à memória. É aqui que os factos menos bons podem ajudar a integrar factos positivos e vice-versa, ambos necessários para a definição do nosso verdadeiro “eu”.

Enfim, é a utilidade da chamada lectio humana. Um verdadeiro exame de consciência, ao fim do dia, não pode ignorar este exercício de trazer à memória os factos concretos da vida. Não se trata, pois, somente de invocar a dimensão moral da nossa conduta, mas também de deixar que os acontecimentos do dia nos dêem a resposta à pergunta: como é que amanhã posso ser melhor em favor dos outros? Esta sinalética leva-me por onde, na minha estrada? Que resistências me impedem de autotranscender-me por um amor teocêntrico?

Para aprofundamento: A. CENCINI, Raccontare e raccontarsi (I): dalla scoperta del senso all’attribuzione di senso, in: Tredimensioni 2007 (4), pp. 249-255.