Vida espiritual: ascética e/ou mística?

Etimologicamente, ascética vem de exercício em geral: físico, filosófico e espiritual. De forma mais comum, passou a designar os esforços mediante os quais se quer progredir na vida moral e religiosa. Daqui derivam os vários tipos de exercícios espirituais que surgiram na história da espiritualidade como resposta a esta necessidade de a pessoa se esforçar para se relacionar e corresponder a Deus.

O conceito de mística aparece muito confuso e põe muitos problemas. Deriva de mysticós o que foi iniciado aos mistérios. Estando relacionada com mystérion, o campo místico implica sempre a existência de uma realidade secreta, escondida ao conhecimento habitual e que se revela através de uma iniciação quase sempre de tipo religioso.

Portanto, por um lado, a vida espiritual requer um esforço ascético voluntário; por outro, assume, em certos casos, um carácter passivo, pois enquanto conhecimento místico aparece como iniciativa de Deus que desvela o próprio mistério, mesmo na obscuridade de um conhecimnento inadequado à sua transcendência. É daqui que nasce a corrente do quietismo, tendência espiritual que nega a utilidade do esforço humano para disciplinar a própria vida e para rezar metodicamente.

Assim se distinguem a “teologia ascética” da “teologia mística”: a forma ascética é voluntária, activa, ordinária da vida espiritual e da vida de oração; a forma mística é contemplativa, passiva, extraordinária. A teologia espiritual, na síntese, faz uma tentativa de realçar os aspectos diferentes destes dois modos de nos relacionarmos com Deus, pra depois proceder ao dificílimo desafio de relacionar estas duas vias espirituais.

A expressão “teologia espiritual” compreende, pois, todos os graus e modos da vida cristã, levando-nos na prática a conceber a desenvolver a vida espiritual na soma daqueles vários aspectos, ambos necessários e complementares da acção/contemplação.

Fontes:
Charles A. BERNARD,
Teologia Spirituale, San Paolo, Cinisello Balsamo (Milano) 2002(6), pp. 28-31.
F. ASTI, Dalla Spiritualità alla Mistica, Libreria Editrice Vaticana, Città del Vaticano 2005, p.p. 50-81.

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