Publicado em Integração Psico-Espiritual

Uma outra dialéctica em «Uma outra juventude»?

“Dialéctica de base” pode dizer-se aquele conflito ou tensão profunda existente no coração de cada pessoa humana, uma condição ontológica própria do ser humano, que se manifesta no estilo de vida da própria pessoa, ou no seu modo de organizar-se durante a vida (nos aspectos cognitivo, afectivo e volitivo: saber, amar, decidir). É uma tensão ou conflito que não se pode “cortar” ou resolver de uma vez por todas, mas que precisa de ser “conduzida” durante toda a vida, já que o viver do próprio ser humano depende da existência e condução daquele conflito profundo.

Numa parte da dialéctica, o ser humano procura “dar uma rosa”, ou seja, dar o seu melhor (saber, amar, decidir) aos valores objectivos (ideais entendidos como valores em si próprios: Deus, os outros, as coisas fora de si); na outra parte da dialéctica ou conflito, o homem dá-se uma rosa a si próprio: faz tudo aquilo (saber, amar, decidir) porque lhe apraz, porque lhe “dá juventude”, quer dizer, porque o faz estar no auge de todas as posses. Enfim, a dialéctica de base resume-se nisto: conduzir um conflito interior entre o bem “in sé” para o qual tendemos e o bem “per me” do qual precisamos de sair continuamente para sermos totalmente felizes.

Para além deste conflito “clássico”, já bem presente em quem acompanha pessoas no auxílio a esta “condução dialéctica” entre o “eu actual” (o que se é) e o “eu ideal” (para onde se tende), descobri no filme de Francis Ford Coppola – Youth Without Youth (traduzido em Itália por «Un’altra giovinezza») – um outro tipo de dialéctica: a dupla atracção humana entre a sua origem e o seu fim. Inspirado em Mircea Eliade, na sua obra mais importante – o Mito do Eterno Retorno -, o realizador apresenta-nos um homem que vive obcecado por investigar a origem da humanidade, a ponto de perder o interesse pelo amor da sua vida, Laura. Aquele mito descreve a busca desta origem histórica através da repetição de “pontos no tempo” através do qual, como chave, se vai formulando um “arquétipo” que constitui, segundo C. Jung, o “insconsiente colectivo” que definiria toda a humanidade.

Eis o que me parece ser o “ponto nó” da questão: a dialéctica humana, aquela primeira, entre o “eu actual” e “eu ideal”, tende em busca de um arquétipo na raíz da sua criação de forma determinística (que depende do “vascolhar” as origens do ser humano indiscriminadamente para se definir e se conjugar), ou de uma construção tendente para um fim que o atrai (o Ideal), através de uma liberdade por um amor auto-transcendente?

Enfim, aquele filme fala-nos de três rosas. Duas para satisfazer os dois lados daquela dialéctica: é como dizer “uma para ti (o ideal, o outro, o Outro) e outra para mim (o eu actual e as suas necessidades)”. Uma rosa sobre a mão e outra sobre o joelho. E a outra rosa, onde se mete?

Bem, parece que a segunda dialéctica não será uma verdadeira dialéctica: só se tende para um ponto da história, o da consumação do Reino, onde o homem será totalemente homem em relação com Deus. A terceira rosa é para entregar ao Criador, não no príncípio, mas na cosumação da Criação, através da condução daquela primeira e fundamental dialéctica de base.

Lendo esta questão de forma interdisciplinar:
Do ponto de vista de uma antropologia bíblico-teológica: descobrimos que o homem tende para fora de si, ao encontro do seu verdadeiro “eu” que só encontrará no Ser que o criou, no conflito entre os «desejos da carne» e os »desejos do Espírito», contemporaneamente presentes na pessoa (cfr. Gal 5,17-22).
Do ponto de vista filosófico, o conflito radicado no interior do coração humano traduz-se por um lado na tendência em o ser humano autotranscender-se em direcção à verdade, ao bem, ao Amor supremo. Por outro lado, reside no experimentar a falibilidade cognitiva, decisional, moral, espiritual. Quer dizer: O homem, que se poderia definir, como um ser posto ao trabalho, mas que tem os sonhos e os desejos em Deus, encontra-se a viver e a mover-se, ao mesmo tempo, entre o «mundo do desejo» e o «mundo dos limites».
Finalmente, numa perspectiva antropologico-psicosocial, aquela dialéctica acontece quer no nível consciente como inconsciente da pessoal, articulando-se sob um plano estrutural, contenutístico e dinâmico: entre o “eu ideal” (eu-que-se-transcende) e o “eu actual” (o eu-que-se-é-de-facto, percebido ou não); entre os valores (atributos do eu ideal) e as necessidades (atributos do eu actual); o desejar emotivo e o desejar racional-espiritual, que conduz o homem nos critérios «dá-me prazer-não me dá prazer» e «é útil e válido-não é útil e não é válido».

Conclusão: a terceira rosa do filme pode servir para coroar aquela “autotranscendência por uma amor teocêntrico» que dá o sub-título a este Blog. Deus espera que vivamos a vida, aproveitando tudo o que Ele nos deu, não fazendo uma arqueologia, mas aprendendo a “conjugar” todos os recursos psico-fisiologicos, psico-sociais e psico-racionais/espirituais que possuímos, sendo livres por um amor autotranscendente. A parte d’Ele é (não menor!) atrair-nos com aquele Amor fundante e ao mesmo tempo finalizante, que, no ao fim, merecerá muito mais do que aquela rosa: o ser humano verdadeiramente à Sua imagem e semelhança.

Moral da história do filme: na “luta com o tempo” o homem só tende para um lado – o futuro – e, por mais que investigue as suas origens, terá de entregar aquela rosa, não a uma felicidade ou fama neste mundo, mas Àquele que o atrai desde a Sua transcendência. Não se pode viver o futuro em função do passado (o que desintegraria o homem por uma causa nula), mas sim revisitar o passado em função do futuro, cujos mistérios conferem força e oportunidade de crescimento e caminho pessoal autêntico.

Para aprofundar:
A. M. RAVAGLIOLI, Psicologia. Studio interdisciplinare della personalità, Edizioni EDB, Bologna 2006, pp. 275-278.
A. J. HESCHEL, Chi è l’uomo?, Rusconi, Milano 1989(4), p. 168.
L. M. RULLA, Antropologia della Vocazione Cristiana, 1. Basi interdisciplinari, Edizioni EDB, Bologna 1997(2), p. 246ss.

NOTA BENE: A quem não entendeu este post sugiro que veja o filme acima mencionado (se não tiverem mais nada para fazer!!).

Autor:

Padre da Diocese de Viseu