Publicado em Integração Psico-Espiritual

Martírio: no profundo ou à flor da pele?

A essência do martírio, que quer dizer testemunho, vamos fundamentalmente buscá-la às palavras e aos gestos de Jesus, sendo a sua entrega na cruz o maior exemplo.

As palavras «Aquele que conservar a vida para si, há-de perdê-la; aquele que perder a sua vida por causa de mim, há-de salvá-la» (Mt 10,39) sugerem-nos atitudes de fornte a acontecimentos ou então um estilo de vida, ou seja, uma forma de organizar a vida, que condiga com aquela dinâmica de “perder a vida” por Jesus.

Tendo em conta que todo o sujeito age não só em conformidade com o que a instituição familiar e social (incluindo eclesial!) mas também em influenciado com as primeiras experiências da vida (sobretudo a infância) que lhe levam uma carga poderosa de energias positivas e negativas, poderíamos perguntar e tentar a resposta:

Será aquela proposta do martírio cristão um testemunho só a ser visível para que seja testemunho imimediato e mediatizado, ou um esforço em conhecer aquelas energias e assumi-las, valorizá-las ou purificá-las (reconciliando-se com elas) para as pôr ao serviço de um estilo de vida evangélico?

Para uma grande pergunta, uma grande resposta: «Um sinal seguramente claro que indique um verdadeiro progresso, uma verdadeira maturação do Eu é, pois, o seguinte. O sujeito, identificando-se sempre mais com qualquer coisa maior do que a sua própria vida, torna-se mais disponível a perder a própria vida, sem perder – traindo o valor – a própria dignidade» (A. RAVAGLIOLI, Psicologia. Studio interdisciplinare della personalità, p. 95).

Enfim, esta é a sorte do mártir dos tempos modernos: entregar a vida desde o seu “eu” profundo, agindo não só em conformidade com o espólio biológico, mas numa transcendência ao encontro da “herança” divina já semeada em cada pessoa.

Paul Claudel afirma, como fruto da sua experiência espiritual, que no impacto com Cristo, a um certo momento dá conta de não poder resistir-lhe, mas, antes, sente de dever-Lhe ceder as armas e converter-se: «… coração que treme, necessita de aceitar o Mestre; Alguém que – dentro – seja mais eu que eu próprio» (P. CLAUDEL, Vers l’exil, VII, p. 18).

A meta final para a qual ocorre que cada Eu cristão tenda também no plano existencial e psicológico ser não poderá, então, ser outra que aquela que nos é claramente indicada pela expressão paulina: «Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim. E a vida que agora tenho na carne, vivo-a na fé do Filho de Deus que me amou e a si mesmo se entregou por mim» (Gl 2,20).

Autor:

Padre da Diocese de Viseu