Publicado em Integração Psico-Espiritual

Fariseu e publicano: possível reconciliar?

Neste 30.º Domingo do Tempo Comum, escutamos um texto já muito conhecido, mas nem sempre bem compreendido. É a parábola de Jesus como resposta àqueles que presumia serem justos. Encontra-se contada em Lc 18,9-14 e sugere-me a seguinte reflexão, procurando aprofundar de forma interdisciplinar:

Jesus apresenta-nos dois homens – sem nome – que vão ao templo orar: o fariseu, representa os leigos, observadores da lei, rigorosos, fundamentalistas; o publicano representa aqueles que extorquiam os pobres na taxas, tinham contacto com os pagãos.

Analisemos a sua conduta paralelamente:

1. Do ponto de vista social, uns – os fariseus – “extorquiam” a dignidade dos outros, impondo-lhes leis que eles próprios não podiam cumprir, afastavam-se do seu convívio, mantendo-se à distância; os publicanos extorquiam bens materiais.

2. Do ponto de vista religioso, os fariseus vivem mais centrados em sí próprios, achando-se os reguladores do que é certo e do que é errado; os publicanos reconhecem-se, porque o são de facto, indignos diante de um Deus todo-poderoso.

3. A oração destes dois personagens é também diferente, manifestando-nos a sua forma de se relacionar com Deus e com os outros: o fariseu é separatista (mantém-se à distância dos homens), desenvolve a sua oração através de palavras, os gestos não contam, servindo-se daquelas para dizer a Deus que ele é importante; o publicano, sentindo-se pecador, começa a rezar com os gestos, batendo no peito e mantendo-se à distância de Deus, numa oração mais simples, onde pede piedade e perdão.

Tentativa de reconciliação (já que em todos nós existe esta tendência para sermos ou como os fariseus ou como os publicanos), a partir da conclusão da parábola: «Quem se exalta será humilhado e quem se humilha será exaltado»:

Não quer dizer que o farieu, por aquela forma de rezar, cumpra a vontade de Deus; também não quer dizer que o publicano, porque foi humilde, já é um santo completo (somente saíu justificado!). O fariseu, para começar uma verdadeira vida espiritual, precisa de ser humilde; o publicano precisa, de facto, de viver a sério, na prática, a miserórdia que recebeu de Deus.

No sentido de uma vida espiritual autêntica, o que para o publicano parece o “fim do princípio” (procípio de vida: do pecado…), parece que para o fariseu é o “princípio do fim” (fim de uma relação humilde e autêntica com Deus e os irmãos).

Assim, podemos concluir que, como consequência a esta oração no templo, o fariseu deve aproveitar a humilhação para crescer. Sim! Não devemos ler aquela frase acima entre aspas como sentença condenatória final, mas como dinâmica de crescimento! A humilhação pode-nos servir muitas vezes como princípio de crescimento… Em relação à atitude do publicano: sim, sentir a misericórdia de Deus, sentindo o seu perdão (o que celebramos no sacramento da Penitência!), ajuda-nos a desenvolver uma vida espiritual aplicada na prática, levando-a a sério nas circunstâncias concretas na vida quotidiana.

Poderia sugerir uma conslusão psico-dinâmica:
Quando a nossa oração é vivida apenas com o realce da palavras, a tendência é vivermos a vida maioritariamente aplicada no “dizer”. Quando na oração também damos valor aos gestos, então para a vida não levamos só palavras, mas também gestos que a ajudem a cumprir. Quanto entre o “dizer” e o “fazer” deixamos que haja muita distância, então caímos neste conflito entre o fariseu e o publicano (ambos nos mostram uma dialéctica problemática: um não vive o bem que diz ser perante os irmãos; o outro não vive coerentemente a misericórida que recebe).

Enfim, já que o fariseu e o publicano estão em conflito dentro de cada um de nós, precisamos de levar a sério a oração e a vida. Não separar as duas dimensões, mas vivê-las com o máximo de coerência. Poderá estar aqui a possível, embora lenta e dramática, reconciliação!

Autor:

Padre da Diocese de Viseu