«Ratatouille»: metáfora da Vocação?

Sim, é um filme que mete ratos, muitos, mas um deles é especial. Podes conferir aqui. Não quero aqui contar a história; acho que a devem ver. Mas sugiro aos adultos que o vão ver, sobretudo a acompanhar os seus educandos, a reflexão que se segue.

Não é que seja mais defensor dos direitos dos animais do que dos direitos do homem, cada coisa no seu lugar, dentro de uma hierarquia de valores. No entanto, este filme pode ser uma verdadeira lição dada pelos humanos aos seus semelhantes, através de uma ficção que personaliza nos pequeninos animais protagonistas e nos desenhos animados da Disney o que acontece na vida humana. Então, cá vai:

O pequenino rato chamado Remy, a um dado momento da saga, vê-se confrontado com três realidades:
1 – Um ideal: ser um cozinheiro. Para isso, tem em vista um modelo: o mais famoso cozinheiro francês, que de alguma maneira o atrai por aquilo em que ele se poderá tornar;
2 – A sua família e amigos, de quem se vai separar por causa das circunstâncias da história;
3 – O fantasma do cozinheiro francês que, afinal, morre mas aparece, em forma de fantasma, como projecção do “eu” de Remy, o rato.

Enfim, parace-me uma metáfora daquilo que acontece com a realidade humana: ideal, família, o ser de cada um… sempre em confronto, mas…

Chega uma determinada circunstância da vida, sobretudo dos mais jovens, em que estes elementos entram mesmo em diálogo a que poderíamos chamar dramático, porque exige da pessoa que se encontra numa encruzilhada uma decisão e uma resposta que só a sua liberdade pode dar.

Poderá este post ser um pouco descabido, ou poderás concluir que estou a ver na metáfora o que mais ninguém vê, ou vê… e não tira as devidas conclusões…

Escrevo, sobretudo para ti, pai ou mãe, educador ou educadora:

Um ideal está lá… gravado no ser profundo dos vossos filhos ou educandos; ou far-se-á convite, um dia, através da voz do Alto. Muitas vezes (como para o rato da história) realizar um ideal nobre não passa de um sonho, pois o protagonista que o sonha ou que o recebe não se confronta: com a família, com o seu “eu” e com esse próprio ideal que, se for autêntico, aparece concretizado nos sinais do quotidiano que denunciam o Autor do chamamento, subtil porque respeitador da liberdade da resposta humana.

Em termos práticos: quando o ideal é verdadeiro, caminhar para ele implica relativizar tudo o resto, mesmo a família (como na história). Implica um grande confronto interior: entre aquilo que parace ser o próprio ser de cada um dividido entre ser actual e o poderá ser através daquele projecto ideal. Não é um fantasma! É a dialéctica subjacente a cada discernimento vocacional: ponderar livremente entre a situação cómoda da pessoa e o seguimento de um ideal radical é dramático. Tem uma dstância que vai do sujeito ao objecto, do eros à ágape, do amor próprio ao amor altruísta. Por isso, a decisão vocacional exige um êxodo… deixar…

Então, caros educadores, melhor do que levar as crianças ao cinema e deixá-las só a mastigar pipocas ou McDonalds no final do filme, é também ajudá-las a “mastigar” esta realidade, através de palavras mais simples do que as minhas, preparando-as para, mais tarde e com o vosso apoio, dar uma resposta a um ideal de vida, seguindo a vontade de Deus, origem de todos os ideais nobres que se concretizam em formas concretas de entrega vocacional, na Igreja e no Mundo.

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