Publicado em Integração Psico-Espiritual

Que espiritualidade hoje?

Vivemos numa era em que está muito em voga o que se pode chamar de psy-rituel, expressão francesa para designar uma nova onda de espiritualidade, que tenta integrar a psicologia e a espiritualidade numa só realidade. Anselm Grün é um dos exemplos desta nova forma de entender e viver a espiritualidade, bem patende na sua forma de escrever.

No documento Novo Millennio Ineunte, o Papa João Paulo II fala de “uma generalizada exigência de espiritualidade” (n. 33), afirmação diante da qual podemos perguntar: que tipo de espiritualidade responde a esta exigência?

Subsitirá ainda aquela “utopia por uma perfeição estandardizada” que fez tanto be a uns e tanto mal a outros? Subistirá, enfim, aquela moderna tendência de oferecer uma espiritualidade que saiba bem aos ouvidos e ao coração a partir do conhecimento e uso dos contributos das ciências humanas?

O tempo que corre, por causa do desenvolvimento da técnica, fez o ser humano perder a capacidade da elaboração simbólica para dar lugar à obrigatoriedade de responder sempre de forma racional a perguntas que não são as últimas. Já sabemos que o ser humano foi criado com outras capacidades… e só agora é que se está a descobrir ou a dar-se importância à inteligência afectiva/emocional e espiritual, para além da racional… Enfim, deu-se lugar a uma espécie de “mistagogia pagã”.

Daqui resulta uma convicção: só uma espiritualidade transversal a todas as dimensões da pessoa, em diálogo com as culturas, que já não tem o tempo como “palco cénico”, porque aqui e ali, à pouco e agora se abrem portas que possibilitam o homem de relacionar-se com a alteridade. Em todas as circunstâncias a pessoa pode encontrar uma força que o leve a crescer em plenitude; e não me refiro só a momentos de pompa!… A plenitude pode estar escondida, por exemplo, na verdadeira capacidade para se estabelecer uma autêntica relação com a realidade.

A partir destas considerações concluo que uma espiritualidade, hoje, será maisinteracção do que acumulo de acções. Falamos de santificação real e não abstracta, de maturidade que se vê e se sente na relação com os outros, de radicalidade cirstã em factos e não só em credos.

Talvez nos falte dar mais relevo à assim chamada “antropologia feminina” que desenvolve como característica o relacionar-se no tempo, em complementaridade com a chamada “antropologia masculina”, também necessária, mas mais neste tempo absorvente, que desenvolve como tendência o fazer, adquirir, possuir…

Enfim, espiritualidade para hoje: sempre incarnacionista, pois a alma, só depois de se corporizar verdadeiramente, é que poder ser verdadeira alma, não habita num corpo pre-existente; assim como o corpo não será verdadeiro corpo sem integrar aquela alma (Card. Daneels).

Autor:

Padre da Diocese de Viseu