Dois tipos de cura

O evangelho dos dez leprosos (cf. Lc 17,11-19) mostra-nos a infinita misericórdia do Senhor que Se manifesta a caminho de Jerusalém.

Um dos leprosos volta à presença de Jesus, prostrando-se por terra em acto de humildade diante do poder de Jesus e gratidão pela cura. Os outros nove não se manifestaram.

Neste episódio vêem-se aqueles dois tipos de cura: um superficial outro mais profundo; a superficial cura do corpo e a profunda cura do coração, no sentido bíblico da palavra, que representa a totalidade misteriosa da pessoa humana.

A pedagogia de Jesus atendia a esta cura superficial, mas não se ficava por ela. Ele procurava dar sentido à pessoa humana a partir do seu ser profundo, onde a fé é chamada a lançar raízes. Por isso, a cura que Jesus veio trazer à humanidade está muito para além da cura “milagrosa” do corpo, assim como muito para além da cura dos pecados. Ele quer restiruir a cada homem a sua dignidade original, muitas vezes maltratada, sim, pelo pecado e pelas contingências do mundo e do tempo.

Se para cura do corpo muito servem os meios, para a cura integral do ser humano, só aquela fé humilde e grata é que nos poderá levar à presença verdadeiro Médico.

Aquele samaritano que voltaou para agradecer a Jesus concedeu-se a aventura de ser peregrino (este não é só o que cumpre promessas!, mas o que encaminha constantemente para a Origem do bem); os outros nove contenta-se por ser uns “crentes” honorários, que seguem o seu caminho sem celebrar a fé passiva de quem já possui um bem, sem ter a coragem de jogar a vida e a fé na relação com o Outro. Os verdadeiros peregrinos são cristãos que possuem um coração que responde, que tem a coragem de morrer pela criatividade e de paixão (cf. A. MANENTI, Vivere gli ideali/2. Fra senso posto e senso dato, EDB, Bologna 2003, pp. 23ss).

Enfim, um cistão peregrino deve deitar-se à aventura de “jogar” a fé e a gratidão na ida e no regresso, no receber e no dar, no superficial e no profundo, na pele e no coração.