Experiência espiritual cristã

Deus chama-nos a autotranscendermo-nos num amor por Ele e pelo próximo semelhante àquele que inspirou a vida de Cristo, a um amor, pois, que não nasce do coração humano, mas que nos foi revelado na mensagem bíblica em geral e das palavras e exemplos de Jesus Cristo e, por isso, um amor infuso no coração humano pela graça divina.
Esta afirmação evidencia-nos que o importante não é amar, mas o modo “cristiforme” de amar, no “como”. O amar “como” Cristo ama pode ser também iniciado do “como” nos comportamos nos acontecimentos do nosso quotidiano. Vejamos o exemplo do S. Francisco quando se encontrou com um leproso: O leproso continuou leproso. Francisco continuou a sentir “repugnância instintiva” por aquele gánero de pessoas. Nada mudou e, porém, mudou tudo!
Os valores naturais (cheiro, doença, susceptibilidade…) não sofrera alteração, mas mais do que esconder os valores transcendentes (amar “como” Cristo ama), fizeram-nos germinar.
Enfim, a experiência espiritual não produz uma mudança de natureza. O que é mau odor continua mau… mesmo depois de uma conversão interior. A experiência dos sentidos permanece intacta, mas não é o último ponto de chegada. É e permanece repulsão, mas não só: é também interpelação religiosa, sem necessidade de submeter a um jogo de prestígio de si nem o objecto daquela experiência, nem o sujeito que a faz. Uma ocasião fortuita da vida é mediação espiritual quando o valor natural que essa imediatamente exprime permenece aberto,ao menos como possibilidade, a um valor transcendente. O leproso permanece um leproso (valor natural) mas também um próximo para amar (valor transcendente). Francisco permaneceu alguém que sentia repugnância, mas ao mesmo tempo inquietado… A presença em nós dos valores transcendentes permite viver as experiências dos sentidos como mediações. Neste sentido, as experiências fazem crescer ou permanecem experiências “mudas”…*
As ocasiões podem, porém, perder-se!
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* Cf. LAM VU, «Francesco d’Assisi e il lebbroso. Psicodinamica dell’esperienza spirituale», in: Tredimensioni 2 (2007), pp. 155-156.