Cantus firmus

Dietrich Bonhoeffer, numa das suas últimas cartas do cárcere de Tegel, poucos meses antes de ser condenado à morte por causa da firmeza do seu testemunho e da sua denúncia, escreveu assim ao amigo pastor E. Bethe: «É o perigo de cada forte amor erótico que se perca, para si próprio, a polifonia da vida. Ou seja: Deus e a sua eternidade querem ser amados com todo o coração; não de forma que fique comprometido ou debilitado o amor terreno, mas em certo sentdo como cantus firmus, em relação ao qual as outras vozes da vida soam como contraponto; um destes temas contrapontísticos, que têm a sua plena autonomia, e que são contudo relacionados ao cantus firmus, é o amor terreno (…). Onde o cantus firmus é claro e distinto, o contraponto pode desenvolver-se com o máximo vigor»*.
Esta imagem de Bonhoeffer ajuda-nos a conceber o celibato para o Reino de Deus como uma melodia que se o sacerdote canta como que “em uníssono” com o cantus firmus que é o amor de Deus. E ainda que o sacerdote não cante sempre “afinado” essa melodia, é chamado, no entanto, a aceitar que neste canto Ele manifesta a grande polifonia da vida do Reino.
A opção pelo celibato não pode ser só abstinência, mas opção positiva; não pode ser só ascética, mas estética; nem somente deve ser algo que deva ser só dito, mas também “cantado”…**
É esta alegria em cantar este louvor a Deus que Se manifesta do padre ou religioso que poderá ser um critério para avaliar a qualidade que quem fez esta opção de vida!
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* D. BONHOEFFER, Resistenza e resa. Lettere e scritti dal carcere (Resistência e submissão. Cartas e escritos da prisão), Milano 1988, 373.
** Cf. A. CENCINI, Per amore, EDB, Bologna 1994, p. 28.

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