Oração que confronta e cura!

        A oração dos salmos e toda a oração da liturgia das horas em geral, é oração que nos confronta verdadeiramente com a verdade. Sendo inspirada, como palavra de Deus posta na boca do homem, os salmos reflectem muitas situações da vida humana a caminho.

        Oração que confronta, porque umas vezes o salmista é o “homem ideal” a atingir, quando diz: «Tenho praticado a rectidão e a justiça» ou «eu sigo todos os vossos preceitos» (Sl 118). A boca de quem recita esta oração é veículo da resposta de Deus ao homem que, na mesma oração, se revela na sua debilidade, ao dizer «fiz o mal diante dos vossos olhos» (Sl 50) e a sua confiança na cura de Deus que aí se manifesta, pois «É firme a sua misericórdia para connosco» (Sl 116).

        Com a oração dos salmos, pode proporcionar-se aquele processo de mudança de vida através do mecanismo de defesa chamado “identificação projectiva” que é um «processo mediante o qual o sujeito se liberta de aspectos importantes do próprio eu “depositando-os” (isto é projectando-os) sobre o que acompanha, para depois se reapropriar daquilo de que se tinha libertado, mas em versão modificada, isto é, correcta e evangelizada pelo que acompanha»1.

        Ora, tratando-se de Deus ― a Quem dirigimos a nossa oração ― as nossas palavras pronunciadas são-nos retribuídas com um novo sentido de vida. Se um salmo o homem se expressa e sente limitado, no salmo a seguir ou cântico é chamado a sentir um novo caminho à sua frente no qual é convidado a dar um primeiro passo ou a perseverar. Esta consideração acerca do valor pedagógico da oração é ainda mais forte quando proclamamos a Palavra que é «como a espada de dois gumes» (Heb 4,12) e ao mesmo tempo segurança e luz para o nosso viver (cf. Lc 8,16ss).

        Esta dinâmica faz com que haja mais correspondência, em nós, entre o “bem aparente” e o “bem real”, ou seja: o bem que realmente sigo com a acção não é só uma ordem da minha mente, mas tem origem no coração; não é só exterior, mas também interior e… é permanente!

___________________

1 Embora este mecanismo de defesa seja comummente classificado como negativo, aqui é descrito numa versão pedagógica positiva. Cf. A. MANENTI, Vivere gli ideali/1, fra paura e desiderio, EDB, Bologna 1988, p. 180.