navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1: At 2, 42-47; Sl 117 (118), 2-4. 13-15. 22-24 L 2: 1Pd 1, 3-9; Ev: Jo 20, 19-31, no Domingo II da Páscoa ou da Divina Misericórdia (Ano A)

Os discípulos estavam fechados com medo: dos judeus, da multidão, dos guardas e soldados romanos… e até de si próprios! Tinham razão para ter medo? Tinham. Maria, sua Mãe, confiava que estava vivo e até poderia lembrar isso aos discípulos, mas que pensariam eles nos seus corações se Ele mesmo aparecesse para lhes lembrar que o negaram, que fugiram d’Ele nos momentos de maior sofrimento? Tinham razões para ter medo. E, por isso, encontravam-se ali com as portas fechados, num espaço estreito que lhes fazia faltar o ar e sem ânimo para o que quer que fosse. Tinham medo e desânimo. Ponto, mas não final…

E, transpondo as portas fechadas, Jesus ressuscitado vem estar no meio deles, não de cima, nem de lado, nem atrás, nem à frente. E traz um presente: a paz. A paz com a qual prova não vir fazer as contas, mas libertá-los do medo. A paz de Deus, o seu amor que é o Espírito Santo. E outro presente: a missão. A paz é o primeiro fruto da Páscoa e quem o acolhe, acolhe o Espírito de Deus e uma missão. Que paz é esta? Não de acordos humanos e ao sabor do vento, nem da economia do bem-estar. Mas a paz que resolve os nossos medos mais profundos, os nossos sentimentos de culpa, os nossos sonhos não acabados, as nossas insatisfações e as nossas dúvidas. Não há “porta fechada” como estas do medo, da culpa, de desânimos e dúvidas que o Senhor não possa transpor para estar no meio de nós e no nosso coração (a não ser que alguém não O queira receber).

Os nossos medos costumam ser aqueles que nos podem afastar da misericórdia divina, numa espécie de autos-sabotagem: quando temos medo de não agradar a toda a gente ou de não ser perfeitos, etc. E daí se pode correr o risco de se seguir o caminho de Judas. Ao passo que Pedro também errou ao negar Jesus, mas aceitou a sua misericórdia. Quem é que usa o GPS numa viagem de carro? Quando nos perdemos a voz do GPS não nos diz “erraste, agora arranja-te sozinho; bem-feita; não te perdesses”. Não! Ao contrário, a voz comunica: “vamos recalcular o seu itinerário” ou “recentrar”.

De oito em oito dias… chegando até nós. E nós de oito em oito dias, transmitido aos futuros a fé que é mais preciosa de que o ouro perecível, como diz Pedro. E de oito em oito dias a partir do grande dia que é este dia da oitava da Páscoa, dada à luz no Tríduo Pascal. A partir da Ressurreição inicia-se uma corrida de estafetas, de oito em oito dias, em que os que habitam a fé passam a Boa Nova aos que a procuram na vida. E isto é possível com o sopro do Espírito Santo. Na Missa Crismal que se celebrou na Sé de Viseu, em quinta-feira santa, o Sr. Bispo, depois de verter o perfume dentro da âmbula do óleo do Crisma, soprou sobre ele. Depois recitou a oração de consagração daquele óleo usado nos sacramentos do Batismo, da Confirmação e da Ordem.

No dia de hoje, há uma figura que nos é muito útil: Tomé. Tomé e a dúvida necessária. São Gregório Magno disse que nos é mais útil a incredulidade de Tomé que a fé dos outros discípulos. Porquê? Porque ao tocar as chagas do Senhor ele curou a nossa ferida da dúvida. Ainda hoje Jesus mantém no seu corpo glorioso as suas chagas abertas. Porque será? É porque delas não escorre somente sangue (para o cálice da Eucaristia), mas também luz, a Palavra e os gestos que são os sacramentos na Igreja. Os que se encontram em Jesus, à maneira da comunidade primitiva dos Apóstolos, podem ser GPS’s dos que caminham no mundo à procura da paz. A comunidade dos crentes é chamada a ser espaço onde qualquer pessoa, sem discriminação, se pode encontrar com Jesus. E na vida concreta das pessoas, podemos encontrar muitas chagas onde ver e tocar Jesus.