navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

Procissão: Mt 21,1-11 / Eucaristia: L 1: Is 50, 4-7; Sl 21 (22), 8-9. 17-18a. 19-20. 23-24 L 2: Flp 2, 6-11; Ev: Mt 26, 14 – 27, 66

HOMILIA ANTES DA PROCISSÃO:

Na proclamação deste Evangelho (Mt 21), antes da Procissão dos Ramos, aprendemos que para consumar o seu mistério pascal, Jesus quis precisar dos seus discípulos e, até, de animais humildes como uma jumenta presa e um jumentinho. Não foi o burro que escolheu Jesus, foi Ele que escolheu o burro para colaborar nesta aventura de salvação. Também não foram os discípulos que escolheram Jesus, mas Ele os escolheu para irem a preparar os elementos para a sua entrada triunfal.

Com os símbolos desta entrada, Jesus ensina-nos que o processo da sua paixão, morte e ressurreição é um processo libertador (como Deus deseja e realiza), não esmagador (como os homens teimam em querer e realizar). Animais e caminhos são revestidos de capas e os caminhos ladeados com ramos de árvores. Estas ajudam-nos, como dizem os antigos Padres da Igreja, a contemplar na Cruz de Jesus a árvore da vida reencontrada.

Jesus no centro. Discípulos e multidão rompem o alvoroço com um simples diálogo sobre a identidade de Jesus. Mas este Rei humilde manifesta-se na simplicidade dos símbolos da pobreza eloquente com que Deus nos salva n’Ele. Entrando com Ele no coração do mistério pascal, “Imitemos, irmãos caríssimos…” (anúncio do começo da procissão).


HOMILIA NA EUCARISTIA:

Estamos a entrar na Semana Santa, nos dias mais supremos da nossa história de fé cristã. Nestes dias, o espaço/ambiente adensa-se de sinais e o ritmo torna-se mais lento, onde palavras e gestos nos ajudam a ver em profundidade a entrega de Jesus Cristo. Como se trata dos dias centrais e de encontro à Fonte da nossa fé, vivemos a liturgia “dissecando” com o “bisturi” da nossa atenção os diversos elementos do Mistério Pascal de Jesus que, ao longo do ano litúrgico, dão sentido e alimentam os vários momentos da nossa vida de fé. A expansão da fé que nos é dado viver ao longo do ano (dimensão horizontal do ano litúrgico) deve-se à profundidade (dimensão vertical) com que celebramos esta Semana Maior.

Nesta Semana não acompanharemos somente Jesus no seu caminho. Se na profundidade do mistério está patente a verdade da mensagem cristã que é amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos, então acompanharemos, também, Jesus nos irmãos que sofrem, nas imensas cruzes que se associam por estes dias à gloriosa Cruz de Cristo. A Cruz de Cristo é o seu trono de amor. A Cruz é, segundo Santo Agostinho, a cátedra de Cristo onde Ele ensinou o amor supremo. Ali onde Jesus reina não Se impondo, mas oferecendo-Se. O madeiro da vergonha tornou-se o sinal da vitória divina.

É ali na Cruz que Deus Pai ama o Amado, abraça-O e tira-O fora da morte para a ressurreição. E nós somos “apanhados” no meio deste abraço, acolhendo-o conforme nos deixamos tocar nas nossas feridas e dores. Nenhuma lágrima é desperdiçada, nenhum gesto, por mais pequeno que seja, é desconsiderado. Da Cruz, último momento do seu esvaziamento (kénosis), Cristo já só sai elevado, ressuscitado. Para que nós possamos deixar-nos esvaziar de tudo o que não nos eleva. Ao levantarmos os nossos Ramos, proclamámos que Jesus é Rei e ao escutarmos a Paixão aprendemos que o seu reinado é o serviço. Segui-l’O significa acolher a lógica do Evangelho: vencer o mal com o bem, responder à ofensa com o perdão, transformar o sofrimento em dom. É este o caminho inaugurado no Batismo… (P. Pedro Rodrigues). Entrar com Jesus em Jerusalém significa assumirmos a nossa vocação com fidelidade. Só assim é que do sacrifício passaremos à vida nova que não tem fim.