L 1: Gn 17, 3-9; Sl 104 (105), 4-5. 6-7. 8-9; Ev: Jo 8, 51-59
Os judeus estavam baralhados diante das palavras de Jesus acerca da vida e da morte, assim como da sua relação com o Pai e do seu conhecimento acerca de Abraão. Pois é assim como muitos, hoje em dia, se sentem diante dos desafios da utilização das novas tecnologias de inteligência generativas em relação à evangelização.
O P. Armando Matteo, falando da relação entre gerações e a transmissão da fé (em obras como A primeira geração incrédula e Converter Peter Pan), fala também de uma rutura em que a principal revolução foi de uma mudança de mentalidade. Ele afirmou que se Abraão viesse à terra hoje, os únicos com quem conseguiria falar seriam os “veteranos” nascidos antes dos anos 40, prévios à grande revolução antropológica e geracional.
Matteo afirma que, desde o tempo bíblico de Abraão até à geração nascida por volta de 1940, o “modelo de ser humano” era essencialmente o mesmo: focado no sacrifício, no dever, na aceitação da finitude e na transmissão de valores aos mais novos. Quem nasceu até meados dos anos 40 ainda foi educado num mundo onde a religião, a família e a autoridade eram os pilares centrais. Abraão entenderia estas pessoas porque partilham a mesma visão de mundo “tradição-dependente”. Após a Segunda Guerra Mundial, acontece o advento do “juvenilismo”, surgindo uma cultura que idolatra a juventude eterna. O adulto já não quer ser “ancião” ou “guia” (como Abraão), mas sim continuar a ser jovem. É aqui que Matteo diz que a “correia de transmissão” da fé se partiu.
Como lidarmos, hoje, com estas mudanças tão profundas na mentalidade humana que quebrou uma continuidade de milénios? O que parecer estar a ser comunicado por Jesus no Evangelho é que a aliança que tem vindo a ser preparar desde longe, em que um marco importante é Abraão, culmina na obra que o Pai realizar em e a partir de Jesus. Não pode haver comparações com a aliança eterna selada no sangue da Cruz de Jesus, que haveremos de recordar perpetuamente.
Não são só os da mentalidade “juvenilista” atual que estão a “romper” com Abraão. Os judeus, apesar do seu discurso de ódio para com Jesus também tinham rompido com este patriarca, apesar das suas homenagens fúnebres demagógicas. Portanto, a mensagem de Jesus serve para não divinizarmos Abraão ou os Profetas, mas ver o que Deus iniciou neles pelo Verbo e que veio a culminar com a encarnação de Jesus, o processo da fé que pode acontecer em cada ser humano.
O que os judeus menos toleraram foi que Jesus dissesse “Eu sou”. Eles sabiam que esta era a identidade do Deus de Moisés na sarça ardente. E não queriam aceitá-l’O, assim como não quiseram aceitar que Jesus “é” desde sempre para que o próprio Abraão “existisse”. Por isso, podemos encontrar muitas semelhanças entre a mentalidade que rompe com a transmissão da fé com a mentalidade daqueles judeus. Podemos encontrar muitas semelhanças entre a mentalidade da guerra e de postura anti-fraternidade universal com a mentalidade daqueles judeus. Deus prometeu a Abraão que seria “o pai de um grande número de nações” e vai cumpri-lo com o mistério pascal de Jesus ao encontro da pátria celeste.
