L 1: 1Sm 16, 1b. 6-7. 10-13a; Sl 22 (23), 1-3a. 3b-4. 5. 6 L 2: Ef 5, 8-14; Ev: Jo 9, 1-41m, no Domingo IV da Quaresma (A). Os itálicos referem-se às admonições do dia em liturgia.pt
No passado Domingo III da Quaresma Jesus apresentou-Se à mulher samaritana e a nós como a Água viva; neste Domingo IV, apresenta-Se-nos como a Luz da vida. E para o fazer, mostra-nos como interagiu com um cego de nascença que encontrou no seu caminho. Quer a samaritana, quer o cego de nascença são figuras de toda a humanidade, com as suas sedes e cegueiras, que só Jesus pode saciar e curar.
Este Domingo é um dia oportuno para meditarmos sobre o Batismo como o banho que ilumina, porque nos faz mergulhar em Cristo que é a luz. Por isso é que os antigos chamavam justamente ao Batismo a “Iluminação”. Isto quer dizer que o Batismo é um mergulho na vida de Jesus, para que conhecendo-O nos possamos conhecer verdadeiramente a nós próprios. “No encontro com Jesus, cada pessoa se encontra consigo mesma e com o melhor que há em si. Porque Ele nos leva ao encontro da nossa própria verdade” (José António Pagola).
Parece que no centro desta cena evangélica está, para além de Jesus, a personagem do cego de nascença, mas há outros personagens nos quais podemos observar outros 4 tipos de cegueira para além da cegueira física, dos quais Jesus nos quer livrar com o caminho do Batismo ou mergulho na sua Luz. Vejamos resumidamente:
1) A casuística dos discípulos. Embora já seguidores do Mestre, ainda se deixavam influenciar pela cultura e religião judaicas, segundo as quais uma doença grave se deveria ao próprio pecado ou ao dos seus antepassados. Jesus rapidamente os elucida dizendo que «isso não tem nada que ver com os pecados dele ou dos pais; mas aconteceu assim para se manifestarem nele as obras de Deus». E Jesus refere que veio para trabalhar nestas obras de Deus, como «Luz do mundo». Portanto, cristãos, deixemos de perder tempo em indagar religiosamente a ligação entre os males que nos acontecem e os nossos pecados. Podem ter uma ligação direta ou indireta, mas cabe só a Deus julgar. A nossa tarefa é abrirmo-nos à sua ação salvadora em nós, por Jesus Cristo, na Igreja. A casuística, porque dedutiva, não ajuda a ver a realidade como ela realmente é, porque relativiza a situação da pessoa em função da rigidez de uma lei.
2) A superficialidade dos vizinhos. Estes e os que costumavam ver o mendigo cego a pedir, só reparavam nas aparências, de modo que se o mendigo mudou de posição e de rosto, eles dividiram-se em opiniões contraditórias, pensando que o que define o ser de uma pessoa seja a sua aparência ou fixação a um lugar. No intuito de resolverem as suas confusões, levaram o homem que tinha sido cego aos fariseus. Cá entre nós: se conhecessem a história dos Magos, não fariam tal coisa; foi como regressarem pelo castelo de Herodes, depois de terem contactado com uma estrela virada para a verdadeira Luz. A superficialidade não ajuda a ver a realidade porque foge à interioridade e à profundidade.
3) O dogmatismo dos fariseus. Para estes, a lei do sábado era mais importante do que o doente e a sua cura. O dogmatismo legalista não ajuda a compreender a diferença entre trabalho/esforço para cuidar dos outros e o trabalho/esforço para ganhar só a pensar em si mesmo. Foi por causa desta postura, a mais grave das cegueiras que Jesus veio dizer «Eu vim a este mundo para exercer um juízo: os que não veem ficarão a ver; os que veem ficarão cegos». É assim: quando reconhecemos a nossa cegueira e acolhemos o Evangelho de Jesus, começamos a ver a verdade. Quando não a queremos reconhecer, permanecemos cegos. O dogmatismo não ajuda a ver a realidade porque tem dificuldades em abrir-se ao novo, às surpresas de Deus, porque tenta encaixar Deus numa moldura, como se fosse Ele que devesse obedecer aos homens.
4) O medo dos pais. O medo é o verdadeiro oposto ao amor, não o ódio (avisa o P. Fábio Rosini, em A arte de curar). E o medo (de desiludir, de perder o controlo, da frustração, de sermos imperfeitos, de não ter importância, de sofrer) não só leva a uma auto-sabotagem, como sabota as relações humanas e familiares. No medo é mais “familiar” a constrição a uma lei do que um ente querido. Aqueles pais do cego, desligaram-se dele com o argumento de que já era adulto, por causa do medo dos judeus os pudessem proibir de ir à sinagoga, por ter que ver com a fé em Jesus Cristo. Com o medo dos judeus, preferiam estar na sinagoga sem Cristo do que o seu filho adulto com Cristo. Tenho acompanhado pais em direção espiritual que têm dificuldade ─ é compreensível em certos ambientes culturais ou religiosos distantes do Evangelho ─, no acompanhamento dos seus filho, em diferenciar uma ideologia abstrata da pessoa concreta que é o seu filho. Este deveria ser objeto de amor, enquanto uma ideologia deve ser objeto de estudo, diálogo paciente e, até discordância ou respeito. O medo não ajuda a ver a realidade porque nos impede de dar saltos de qualidade na relação com Jesus que é a própria sabedoria de Deus, que ajuda a superar ou a conviver com tudo o “joio” que nos aflige.
Então, como é que podemos sair desta consulta de “oftalmologia“ divina” com Jesus, de modo a que possamos viver Batizados-Iluminados?
Vejamos a partir das leituras de hoje:
1) A casuística resolve-se com o espírito missionário. Os que vemos com os olhos da fé, não podemos ficar parados, não obstante as nossas confusões. Aliás, a inércia ainda nos faz estar mais cegos diante da realidade. Não se pode ser cristão de sacristia ou escritório. Mais importante do que andarmos a indagar sobre as causas morais de uma situação, é importante e urgente atuarmos a proximidade com as pessoas, ajudando a que esse abraço ajude a curar as causas reais. Quantas vezes por detrás de uma vida desregrada esteve uma infância amargurada? O que poderá ajudar a recuperar um passado difícil é uma relação significativa de afeto. Seja com quem for. Somos todos irmãos!
2) A superficialidade resolve-se com a profundidade da verdade. E esta só é possível abeirando-nos das verdadeiras fontes. A realidade é uma delas. Os sinais dos tempos são a linguagem de Deus! Por isso, a conversão que somos convidados a viver no tempo da Quaresma, começa por ser a conversão intelectual: passar do que me parece ao que é em si mesmo.
3) O dogmatismo ou o legalismo curam-se, diria o povo que também é sábio, com o bom senso. Tecnicamente diria: na vida cristã é preciso usar as duas asas do mesmo “voo”, que são a fé e a razão. Não podemos crer sem pensar e não podemos pensar sem professar a fé. Uma e outra coisa ajudam-se mutuamente. Não nos podemos deixar espiritualizar por uma fé que não dialogue/inculture com a razão, nem nos podemos deixar manipular por uma razão que não se deixa iluminar/evangelizar pela fé.
4) O medo resolve-se com a confiança no mandamento do amor, conforme Jesus o apresentou: amar a deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos (cf. Mt 22,37-39). Portanto, sermos batizados “resolvidos” implica deixarmos que Jesus nos ame, curando-nos as nossas cegueiras. E cada um tem as suas. De diversos tipos. Deixemos Jesus trabalhar em nós, em todos os dias da semana. Bónus do cristianismo: e muito embora «um cego não possa guiar outro cego» (cf. Lc 6,39), no entanto, estejamos abertos a que Jesus envie quem Ele quiser aos “Enviados”. A comunidade dos crentes pode ser entendida como uma “piscina de Enviados”, uma comunidade terapêutica onde, com a verdade na caridade, o acolhimento pode ajudar qualquer pessoa que se sinta perdida voltar ao Caminho de Jesus, alternativo às trevas que se encontram no mundo.
