L 1: Dt 4, 1. 5-9; Sl 147, 12-13. 15-16. 19-20; Ev: Mt 5, 17-19
No Evangelho de hoje, a respeito da Lei e os Profetas, Jesus diz: “não vim revogar, mas completar”. Não revogar (gr. kataluó) significa não abolir ou não dissolver; e completar (gr. pléroó) significa tornar completo, rematar, concluir, aperfeiçoar, preencher ou, melhor, levá-la a pleno cumprimento. Neste sentido, o título inglês desta perícope ─ Jesus Fulfills the Law (Jesus cumpre a Lei) ─ é suficientemente elucidativo do sentido da sua mensagem e atuação: a de Quem ensina a Lei praticando-a a partir do testemunho dos Profetas. A lei, como expressão da vontade de Deus deve ser aceite na sua totalidade.
Por isso, no Evangelho, é dito com clareza que a Lei ensina-se praticando-a, na ordem como Jesus diz: “aquele que os praticar e ensinar será grande no reino dos Céus”. Não é só de intenções que está o inferno cheio, como costuma diz o povo, mas também de cinismo (lei-fachada para acalmar a opinião pública), nominalismo (lei-papel sem corpo, nomes sem substância), inefetividade (normas válidas sem produção de efeitos práticos, “leis que não pegam”), simbolismo (lei criada não para resolver um problema, mas para passar uma imagem de que algo está a ser feito, um gesto político, não uma ferramenta de ordem) e hipocrisia (lei imposta por quem não a cumpre). Estas são contradições clássicas das ciências política e jurídica e, até, da religião, relacionadas com a tendência de criar leis com a intenção de não as cumprir. Por isso, chega-se a afirmar que “entre o dizer e o fazer, há um abismo de legislação” (no italiano, tra il dire e il fare c’è di mezzo il mare).
Neste texto, Jesus refere-se à Lei de Deus, não às leis humanas (não só políticas mas também as religiosas que acumularam com as tradições humanas). Jesus refere-se, também, aos Profetas que deram a vida denunciando e anunciando para que o povo, sob o jugo da Lei, chegasse à terra prometida. Jesus veio tornar este “jugo” suave, convidando-nos a cuidar dos pormenores da Lei, para que possamos vir a ser “grandes no reino dos Céus”. A nossa vida cristã, assim como é proposta por Jesus, é como acontece na arte: a sua conclusão não será atingida sem a concretização dos pequeninos detalhes, com instrumentos delicados como o pequenino pincel ou bisturi de precisão ou serras de ourives. Como alguém costuma dizer: por vezes, “os pormenores são pormaiores”. Assim, o testemunho profético é a melhor ferramenta para se esculpir a perfeição da Lei de Deus. Porque é a prática da Lei que dá a vida: “põe-nos em prática, para que vivais e entreis na posse da terra que vos dá o Senhor”.
“Tomar posse” da vida eterna implica viver o dinamismo da quaresma que leva à Páscoa deixando que Jesus vá “esculpindo” em profundidade o nosso ser. Na continuidade deste trecho do Evangelho (versículos 21 e seguintes): “ouvistes que foi dito, não matarás… Eu, porém, digo-vos todo aquele que se irar com o seu irmão…”, etc. Jesus está a dizer que não quer só melhorar o nosso comportamento, mas começar por cuidar das causas do mau comportamento no no nosso coração. Os meios que Ele usa são a sua Palavra, os Sacramentos, sobretudo da Penitência e da Eucaristia, a justiça e a caridade. Que também possamos ir mais a fundo quanto ao que se refere aos “conselhos evangélicos” quaresmais da oração, jejum e esmola, não nos ficando só pelo comportamento exterior. Que a partir destes conselhos possamos deixar que Jesus transforme o nosso coração, para que a partir dali floresça o seu Reino de vida nova.
