navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1: Ez 18, 21-28; Sl 129 (130), 1-2. 3-4ab. 4c-6. 7-8; Ev: Mt 5, 20-26. Os itálicos referem-se às admonições do dia.

Na introdução a um livro que foi tornado público este mês pela Editora do Vaticano nos Estados Unidos da América e demais países de língua inglesa com o título “A paz esteja convosco!”, podemos ler estas palavras do Papa Leão XIV:

A paz é um dos grandes temas do nosso tempo e é ao mesmo tempo um dom e um compromisso: um dom de Deus construído por homens e mulheres ao longo dos séculos. Vivemos num mundo ferido por muitos conflitos e atingido por hostilidades sangrentas. O nacionalismo extremo espezinha os direitos dos mais frágeis. Mesmo antes de ser esmagada no campo de batalha, a paz é derrotada no coração humano quando cedemos ao egoísmo e à ganância e quando permitimos que os interesses partidários prevaleçam em vez de olharmos para o bem comum. Muitos autores afirmaram que é quando nos recusamos a ouvir as histórias de outras pessoas que começamos a privá-las de sua dignidade. Despersonalizar os outros é o primeiro passo para toda guerra. Conhecer os outros, no entanto, é um prenúncio da paz. Podemos nos sentir impotentes diante das muitas guerras que estão sendo travadas no mundo. Podemos responder de várias maneiras ao que chamei de ‘globalização da impotência’: os fiéis podem, antes de tudo e acima de tudo, dar voz à oração. A oração é uma força “desarmada” que busca apenas o bem comum, sem exceções. Além disso, o nosso coração é o campo de batalha mais importante. É nele que devemos aprender a vitória silenciosa, porém necessária, sobre os impulsos de morte e as tendências à dominação: somente corações pacíficos podem construir um mundo de paz. Devemos praticar uma cultura de reconciliação, criando laboratórios não violentos, lugares onde a desconfiança em relação aos outros possa se tornar uma oportunidade de encontro. O coração é a fonte da paz; nele, devemos aprender a nos encontrar em vez de entrar em conflito, a confiar em vez de desconfiar, a ouvir e compreender em vez de nos fecharmos para os outros.

Podemos acolher este pensamento do Sumo Pontífice à luz das palavras do Evangelho de hoje, onde aprendemos pelas palavras de Jesus que se a conversão a Deus é o fim de todo o caminho quaresmal, este caminho começa pela reconciliação com os irmãos, que são sempre a imagem de Deus mais próximo de nós, como Deus assim os apresenta; não se pode passar ao lado dos irmãos para chegar a Deus, pois que Deus para vir até nós Se fez nosso irmão.

E como é que podemos superar a justiça dos escribas e fariseus? À primeira vista, indo em profundidade, pelas razões e não meramente presos à letra da lei. Vejamos as antíteses no discurso de Jesus: não basta não matar o corpo do irmão, é preciso não se irar contra o seu irmão. Muitas vezes, estar presos à materialidade da lei, despreza-se ou omite-se o seu núcleo verdadeiro. É como se alguém com sede nos pedisse água e quiséssemos descarregar a consciência dando-lhe a garrafa vazia.

Considerando melhor: ferir o corpo do irmão ou ferir o seu coração é sempre matar. Muda a perspetiva e o instrumento que fere, mas a consequência é a mesma. Aquele que mata o corpo pode ser preso na prisão terrena; aquele que mata o espírito ou a alma aventura-se a ficar preso na “geena” que nem sequer é antecâmara para o Céu.

Em conclusão: na ética de Jesus, a justiça é um “mínimo necessário” e a caridade constituiu o “excesso necessário”. Devem andar juntos, para que ninguém se perca. O tempo da Quaresma podem ser uma oportunidade para discernirmos se, em cada situação em que está sempre a par o nosso relacionamento com Deus e com os irmãos, o nosso modo de proceder é justo ou injusto. Dependendo disto, a caridade de Deus manifestar-se-á em nós e a partir de cada um de nós. Diria, enfim, que a Paz verdadeira precisa destas duas “asas” que Jesus nos inspira: a justiça como mínimo necessário e a caridade como excesso necessário.