navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1: Lv 19, 1-2. 11-18; Sl 18 B (19), 8. 9. 10. 15; Ev: Mt 25, 31-46

No domingo 2 de junho de 2013, durante a celebração da Eucaristia com o Sacramento da Confirmação de um grupo de 44 jovens, na igreja dos Santos Protomártires Romanos, em Roma, o Papa Francisco falou do “Protocolo Mateus 25” como o protocolo pelo qual seremos julgados.

Nesse dia, Francisco decidiu não ler o discurso preparado e preferiu o diálogo direto. Quando os jovens lhe perguntaram como viver a fé após a catequese, ele respondeu com o seu humor caraterístico:

Digo-vos uma coisa: se cumprirdes estas coisas [de Mateus 25], ides direitinhos para o céu sem passar pela alfândega! Porque o Senhor diz: ‘Eu estava com fome e deste-me de comer…’ Este é o protocolo sobre o qual seremos julgados.

Esta frase tornou-se viral na época porque resumia a teologia do Papa: menos burocracia religiosa e mais ação concreta junto dos que sofrem. Ele explicou que a vida cristã não deve ser uma “complicação” de teorias, mas sim a prática das Obras de Misericórdia, sempre atuais como são descritas pelo próprio Jesus no Evangelho.

Para o Papa, este capítulo do Evangelho é o “guia de bolso” definitivo para qualquer cristão que queira saber o que fazer na prática. Ele repetiu este mesmo conselho mais tarde, na Jornada Mundial da Juventude no Rio de Janeiro (2013), reforçando que os jovens não precisam de ler muitas coisas para saber o que fazer: basta ler as Bem-aventuranças e Mateus 25.

O que Jesus, o Bom Pastor e Justo Juiz, nos quer dizer é que as ovelhas, separadas dos cabritos, são aquelas que cuidam por não interpor seja o que for entre a escuta da sua Palavra e a prática das boas obras. Há muitas coisas, como ideias, boas intenções, mecanismos de defesa, condenações, demagogia religiosa, etc., que poderá atrasar o bem que Jesus nos convida a fazer, estando diante da Palavra com uma escuta estéril. Por isso, a Quaresma, como tempo de conversão, é, também, um tempo de renovação do amor a Deus e ao próximo.

Nos 40 anos do caminho de deserto até à Terra Prometida, o Povo era alimentado com o maná que Deus lhe enviava. Hoje, nestes 40 dias simbólicos, o alimento que o Senhor nos dá, na Igreja, é a sua Palavra. O “sacrifício abundante e agradável” com que São Policarpo se oferece a Deus é esse mesmo testemunho de quem abraça a Palavra e as boas ações que ela inspira. A visão dos que presenciaram o milagre do seu martírio pode descrever a vida de um cristão que se doa continuamente em favor dos mais necessitados: “pão que cose” ou “odor de tal suavidade”.

No Expresso, encontra-se uma crónica do psiquiatra José Gameiro, com o título “A minha mãe vive comigo há dois anos, a minha vida transformou-se num inferno, ao ponto de desejar que ela morra”, narrando o caso de uma filha única de um casal no interior do país. Cresceu num ambiente descrito por ela como agressivo por parte da mãe e neutro por parte do pai, e com uma adolescência de revolta. Perto da sua morte, o pai faz-lhe um pedido que a faz sofrer: “Vai chegar uma altura em que a tua mãe vai ficar mais velha e a precisar de cuidados. Na vila onde vive, onde vivemos, a sua relação com as pessoas não é a melhor, conheces bem o seu feitio. O que te vou pedir, sei que vai ser duro para ti, mas conheço o teu marido e sei que não vai criar dificuldades. Nunca a ponhas num lar, quando vires que a sua autonomia é pequena faz das tripas coração para ela ir para a tua casa”. Aquela filha ficou “aterrada com a ideia. Mas não fui capaz de lhe dizer que não e, em memória dele, anos depois cumpri a promessa”, pedindo ajuda ao psiquiatra para “lidar com alguém que sempre me tratou mal e agora é dependente de mim”. Ela deixou que a raiva viesse ao de cima e tomasse conta da sua relação com a própria mãe. O psiquiatra responde-lhe que “O que está a fazer com a sua mãe é uma função, não é um ato de amor”. Ele percebeu que esta filha era incapaz de manifestar afeto pela mãe e de vir a prejudicar as suas próprias filhas. E conclui: “Apesar de lhe parecer impossível, pode acontecer que, depois da morte da sua mãe, sinta remorsos. Tratá-la o melhor possível também é uma forma de se defender de sentir, no futuro, arrependimento. Se fosse padre, acrescentaria: está absolvida, vá em paz e que o Senhor a acompanhe.”

Hoje rezo por todas as pessoas que foram “obrigadas” a crescer num ambiente humano ou religioso hostil, chamadas a cuidar de pessoas que as maltrataram de alguma forma, pedindo ao Senhor que o “protocolo Mateus 25” constitua, também, uma forma de não deixar que o passado pese sobre as suas feridas, e o “bom odor do serviço” possa ajudar a vê-l’O como vítima de expiação por detrás das causas que atrapalharam as relações familiares, para se poder contemplar naquele trono do amor vitorioso. Oremos, irmãos.