navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1: 1Rs 2, 1-4. 10-12; Sl 1Cr 29, 10-11ab. 11c-12ab. 12c-13, Ev: Mc 6, 7-13, na memória da virgem e mártir Santa Águeda

Os grandes chefes de Israel, antes de morrer, costumavam reunir os seus filhos à sua volta, para lhes declararem a sua última vontade e pronunciar a derradeira bênção (cf. Gn 49, Dt 33, Js 23-24, 1Sm 12). Este estilo contrasta com a cultura de hoje, em que se espera que faleçam os mais velhos e, só posteriormente, na maioria dos casos, é que os filhos se reúnem para debater como vão ser as partilhas, por vezes com diálogo e supervisão jurídica, por causa de contendas… Até nas comunidades cristãs, frequentemente, o que resta são bens declarados, em vez de testamentos espirituais. Mas estes, apesar de raros, ainda existem no testemunho dos que têm a consciência de ter realizado o bom combate da fé, e desejando que outros percorram a mesma aventura.

É belo o testamento espiritual que o rei David deixa a seu filho Salomão. Afinal, a experiência espiritual de vida, entre batalhas humanas e a superação da fé, serviram para deixar um legado que promete não só estabilidade, mas sobretudo futuro. As recomendações que lhe faz incluem a fé de que a história humana transporta sinais da salvação divina, através da fidelidade do povo a Deus.

Tem coragem e procede como um homem. Guarda os mandamentos do Senhor, teu Deus. Segue os seus caminhos, cumprindo os seus preceitos, estatutos, normas e decretos, conforme está escrito na Lei de Moisés. Assim serás bem sucedido em todas as tuas obras e empreendimentos e o Senhor cumprirá a promessa que me fez

Qualquer filho de um homem de poder ou qualquer súbdito de um qualquer superior, hoje, ficaria ansioso com um tipo de herança deste, não material, mas de espírito como se pode viver qualquer missão promissora de futuro.

Testemunho pessoal: quando me foi dado partilhar a missão de participar numa das comissões (a da Dei Verbum) do sínodo diocesano em Viseu, entre 2010-2015, uma das intuições que, graças a Deus, surgiu com grande peso no diálogo de quem haveria de propor moções à assembleia geral foi: não devemos somente propor tarefas a realizar na dimensão da formação, catequeses e evangelização, mas também e, antes de tudo, sugestões sobre o espírito como somos chamados a envolvermos na missão. Foi em boa hora (mais charis do que kronos) que pudemos enviar ao secretariado do sínodo diocesano um texto equilibrado, entre herança espiritual recebida e novidade a realizar, diante das necessidades percebidas naquele contexto.

No entanto, a tendência é sempre a entrópica fuga do ser humano para procurar a segurança no “espírito do tempo”, que entorpece o discernimento espiritual, como, no dizer de Tomás Hálik,

uma certa mentalidade da sociedade que, na maioria das vezes, surge de uma reação imediata a processos externos e superficiais; manifesta-se sob a forma de moda; é marcado pela influência da publicidade, da propaganda e da ideologia…

O referido teólogo explica que este “espírito do tempo” prolifera-se com “notícias sensacionais, fama, calúnias, desinformação, notícias falsas”, etc., “e, principalmente, no anonimato nas redes sociais, esses fenómenos estão a propagar-se de modo similar a doenças infecciosas”.

Se dentro da missão da Igreja usarmos sem critério os meios que a sociedade nos dispõe, em vez de apostolicidade ─ vivida entre a herança que é o testamento da vida de Jesus e o discernimento dos sinais dos tempos à luz da fé ─, corremos o risco de deixar pouco para as gerações futuras. Em vez da transmissão de carismas, há dentro das congregações uma forte tendência para a mera transmissão de obras sociais, como advertiu D. José Miguel Pereira, na conferência principal (“Acompanhamento vocacional: experiências e itinerários) do encontro de agentes de pastoral vocacional, em Fátima (31/01/2026).

Os carismas também são a “linguagem de Deus” que podemos escutar como “sinais dos tempos”. Está neles não só o envio para uma determinada missão, como também o modo como se é chamado a viver essa missão. Carisma é método e conteúdo. Vemos isso na vida de Santa Águeda, conservando, no furor da perseguição, a pureza do corpo (método) e a integridade da fé (conteúdo). Só assim é que poderemos, como ela, dar testemunho de Cristo, sobretudo no meio de graves tribulações, mas garantia de que a oferta da salvação chegue às gerações futuras, como hoje nós aqui a celebrar a memória de Santa Águeda, depois do seu corajoso testemunho!