L 1: 2Sm 24, 2. 8b-17; Sl 31 (32), 1-2. 5. 6-7; Ev: Mc 6, 1-6, na memória do presbítero e mártir São João de Brito
O Haka é uma dança tradicional do povo Maori da Nova Zelândia, é famosa no desporto, principalmente no râguebi (All Blacks), mas também aparece no futebol, como nas seleções femininas e masculinas, para mostrar orgulho, força e intimidar adversários, embora não seja uma tradição tão enraizada quanto no râguebi e nem sempre resulte em vitória, como visto em jogos da seleção feminina.
O episódio a que se refere a leitura do 2ª Livro de Samuel poderia servir de critério para avaliarmos diante de Deus se é bom ou não tão bom (ou até mau) cairmos na tentação de recensearmos exageradamente a vida cristã nas nossas comunidades e para que fins ou “batalhas”. Por vezes, também nos servimos de números estatísticos como “hakas” diante das outras instituições. Aos homens, pode intimidar; mas isso, de que vale diante de Deus? Escutei há poucos dias um bispo a lamentar-se pelo facto de, em Igreja, sermos mais afoitos a fazer o recenseamento da prática dominical e menos esforçados em querer saber quais são as famílias verdadeiramente cristãs.
David deu-se conta a tempo, não sem a necessidade de castigo de correção por parte de Deus, não deixando que a soberba o levasse a celebrar o facto de ter mais homens no seu exército. Ainda há pouco o vimos a chorar a morte e a fazer luto pelo filho Absalão; e agora quase a celebrar por ter mais homens para combater contra os outros povos. Ainda há pouco o vimos temer o ser destronado; e a agora a encontrar mais forças para destronar outros. Na volta, cai-se no risco de destronar Deus. No final, David tem a coragem de se destronar, para voltar a entronizar Deus, quer dizer, a colocá-l’O no seu devido lugar e reconhecendo a amplitude do seu governo.
A Palavra de Deus, hoje, adverte-nos que a utilidade de termos mais números nas nossas instituições pode ser de uma grande inutilidade diante de Deus, se o objetivo é autorreferencial. Autorreferencial é a assembleia da sinagoga de Nazaré com as palavras que proferem diante da autoridade divina de Jesus. Preconceitos e respeitos humanos impedem-nos de acreditar na origem divina de Jesus que se manifesta na sua sabedoria e nos gestos milagrosos.
Neste próximo sábado, no encontro de formação de acólitos da Diocese de Viseu, levarei a lembrança das mensagens dos sumos pontífices sobre a importância deste ministério, entre as quais as palavras do Papa Bento XVI (audiência geral 2 agosto 2006):
Vós estais muito próximos de Jesus Eucaristia, e este é o maior sinal da sua amizade por cada um de nós. Não vos esqueçais disto; e por isso vos digo: não vos habitueis a este dom, para que não se torne uma espécie de hábito, sabendo como funciona e fazendo-o automaticamente, mas descobri todos os dias novamente que se realiza uma coisa grandiosa, que o Deus vivente está no meio de nós, e que podeis estar próximos dele e contribuir para que o seu mistério seja celebrado e alcance as pessoas. Se não cederdes ao hábito e desempenhardes o vosso serviço a partir do vosso intimo, então sereis verdadeiramente seus apóstolos e dareis frutos de bondade e de serviço em todos os âmbitos da vossa vida.
É isto mesmo que aconteceu com David e aos nazarenos: os hábitos diários podem fechar-nos em automatismos que, por sua vez, nos tornam escravos de algoritmos religiosos autocentrados. Precisamos de voltar ao nosso íntimo, para verificarmos ali se a nossa fé não está assente nas exterioridades ou no poder das pessoas, mas no poder de Deus.
O grande fruto apostólico do jesuíta São João de Brito nas terras da Índia implicou um duplo “martírio”:
1. Deveu-se não só ao trabalho no meio de grandes sofrimentos e perseguições,
2. mas também implicou a adaptação à vida e costumes dos ascetas daquela região, esforçando-se por não impor os seus costumes, ou seja, por ser autorreferencial.
De facto, como observa Tomás Hálik, as formas da vivência da fé podem mudar, mas permanece o seu núcleo a defender sempre com clareza e não com subterfúgios ou ou máscaras de mecanismos de defesa pessoais: a vida eterna que Deus bondoso quer partilhar com toda a com a humanidade (cf. O sonho de uma nova manhã).
