navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1: 2Sm 18, 9-10. 14b. 24-25a. 30 – 19, 3; Sl 85 (86), 1-2. 3-4. 5-6; Ev: Mc 5, 21-43

No fim-de-semana passado, aconteceu o 19.º Encontro de Animadores de Pastoral Vocacional, sob o tema “Acompanhamento vocacional: experiências e itinerários”. Numa das rondas da conversação no Espírito Santo, um dos participantes partilhou que no acompanhamento dos jovens somos chamados a “estar presentes, mas não ser absorventes”. Esta intuição parece estar de acordo com o que é relatado no Evangelho de hoje, uma vez que, depois do toque daquela mulher, “Jesus notou logo que saíra uma força de Si mesmo”. Ou seja, não tirou nada à mulher, a não ser a doença, não permitindo que a multidão a mantivesse na massa de maneira indiferenciada.

Outra convicção partilhada naquele acontecimento de formação foi que acompanhar é diferente de animar. Animar refere-se ao todo de um grupo, nivelando por baixo, sem distinguir as pessoas. Já acompanhar implica uma atenção personalizada, é caminhar com, partilhar o pão e a cura. Implica um diálogo significativo que leve as pessoas a fazer experiências felizes em Igreja com ressonância interior, onde a cada pessoa é dada uma atenção personalizada em contexto comunitário; com exigência adequada, a puxar para cima; com paciência e pedagogia progressiva. É o que vemos, também, nesta cena evangélica: uns caminham com Jesus sentindo-se animados; por seu lado, Jesus caminha com aquela mulher focalizado na sua busca crente de cura n’Ele.

A provocação de Jesus ─ «Quem tocou nas minhas vestes?» ─ pode ter sido um chamamento para um verdadeiro discernimento sobre o toque da fé. Há tocar por tocar e tocar crente diante de quem se deixa tocar. Aquele «Minha filha, a tua fé te salvou» de Jesus significa que o toque daquela mulher foi uma verdadeira profissão de fé. E a confirmação desta lição está nas palavras de Jesus ao chefe da sinagoga «Não temas; basta que tenhas fé». Portanto, Jesus está presente na vida daquela mulher no caminho, servindo-Se da sua condição de busca como “púlpito” para o chefe da sinagoga acreditar mais no mistério da fé.

Por vezes, Jesus serve-Se de vozes de fora da Igreja para emitir uma mensagem para o bem da missão da Igreja, na sua multiplicidade de tarefas terapêuticas (do grego therapein: de trato, de serviço).

Conforme estes dois acontecimentos de cura se entrelaçam no quotidiano relatado pelo Evangelho, já contemplei num grupo de famílias que acompanho, e até na formação dos futuros presbíteros no Seminário, que ali onde são partilhados problemas, ao mesmo tempo são partilhadas as soluções. O evangelista também não nos fala de um super-homem, nem em nenhum mago, mas em Jesus que procura dialogar sem centrar o poder da cura em Si mesmo, mas unicamente ao agir de Deus na história da humanidade através de Si, informando que a morte e o mal não têm a última palavra.

Uma das cenas quotidianas de que os cristãos são chamados a “pregar” é com a atitude do perdão, sobretudo aos inimigos. Como David fez, chorando a morte do próprio filho Absalão, que lutava para o tirar do seu trono. Quem dera que os cristãos pudéssemos dar este belo testemunho público de perdão. Talvez as nossas assembleias fossem, mais do que numerosas, mais autênticas!

O rei David foi um “cristão” antes do cristianismo, perdoando os inimigos e chorando por eles. Esta semente do perdão foram semeadas por Deus no coração das pessoas, para que Jesus pudesse alavancar com o seu exemplo na Cruz o crescimento da cultura do perdão.

Hoje, peçamos ao Senhor o dom do espanto. Que nos ajuda a não domesticarmos a sua Palavra, deixando o coração ganhar teias de aranha. Que nos dê a graça de ficar maravilhados ao ver o seu agir na história das pessoas. Que nos transforme o espanto em esperança e a admiração em ação.