navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1: 2Tm 1, 1-8; Sl 95, 1-2a. 2b-3. 7-8a. 10 (próprias) Ev: Lc 10, 1-9 (da memória), na memória dos bispos Santos Timóteo e Tito

Aprendíamos ontem, na liturgia dominical, as caraterísticas do discipulado cristão, entre o «Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos Céus» e o «Vinde e segui-Me e farei de vós pescadores de homens». Jesus encarna na profecia de João Batista e atreve-se a iniciar a sua missão de forma sinodal, convidando outros a andar com Ele, para os preparar e enviar. Tal como no discipulado judaico, há uma relação entre o discípulo e o seu mestre, e que o o verdadeiro discípulo se formava no seguimento do seu mestre e a sua vida era modelada pela aceitação do jugo que o mestre lhes impunha. Portanto, fazia parte de qualquer discipulado entrar para a escola de um mestre, viver com ele, aceitar os seus ensinamentos, renunciar a muitas coisas. No entanto, a par destas semelhanças, o discipulado cristão contém diferenças determinantes em relação ao discipulado judaico:

discipulado judaicodiscipulado cristão
É o aluno que se “matricula” numa determinada escola entre muitas, com os respetivos mestres.A iniciativa é sempre de Cristo, que é quem chama.
A vida do discípulo judeu podia vir a ser muito diferente da do seu mestre.O discípulo cristão tem que viver à semelhança do seu Mestre e “beber o cálice” que Ele bebeu.
Discípulos na esperança de um dia deixarem de o ser, convertendo-se também eles em mestres.Discipulado permanente, uma vez que só Cristo é verdadeiro Mestre.
Escola de fazer “mestres”.Envio missionário, “pescadores de homens” enviados para fazer discípulos.

As leituras desta memória dos Santos bispos Timóteo e Tito refletem de forma precisa estas caraterísticas inéditas do discipulado cristão na perspetiva missionária. Os discípulos-missionários seguem estas pistas claras no seu caminho de seguimento do único Mestre que é Jesus Cristo, entre o chamamento e o envio:

  1. Vivem constantemente iluminados pela Palavra
  2. Trabalham na própria conversão de forma contínua
  3. Têm a coração de fazer renúncias
  4. Atraem outras pessoas pelo testemunho da Palavra
  5. Trabalham na construção da unidade na Igreja, solidificando os vínculos pessoais e pastorais em favor de todos

Foi isto que se quis traduzir com o lema do Domingo da Palavra (III do Tempo Comum) neste ano 2026: «A palavra de Cristo habite entre vós» (Col 3,16). Está aqui o convite a uma nova forma de existência: a de permitir que a Palavra de Deus “habite” não só em cada um de nós, mas também entre nós. E se fixe de forma estável, plasme os nossos pensamentos, oriente os nossos desejos e torne credível o testemunho dos discípulos. A Palavra de Cristo permanece como critério seguro que unifica e torna fecunda a vida da comunidade cristã (Dom Rino Fisichella, Pró-Prefeito do Dicastério para a Evangelização).

Também nós hoje, como no tempo de Jesus e dos primeiros apóstolos, vivemos confrontados com a dialética entre os poucos missionários e os muitos/grandes desafios da missão. O que o nosso Mestre faz é pedir que rezemos e Ele mesmo envia os trabalhadores para a sua seara. Duas notas importantes: a seara tem um dono e é Ele que envia os trabalhadores. Portanto, poucos ou muitos que sejam, precisam de ser adequados com a mesma Palavra e exemplo do Mestre que os forma através da mediação da Igreja.

Escolhemos o Evangelho próprio da memória, mas o da féria (Mc 3, 22-30) também nos ajudaria a sublinhar uma nota importante que estão implícitas nas leituras da memória: o vínculo de unidade entre os pastores e os enviados. A este respeito, o P. Luigi Maria Epicoco afirma que “Para ser eficazes é preciso estar unidos“.

Hoje trago à oração a notícia sobre o encontro do Papa Leão XIV com os responsáveis do Caminho Neocatecumenal. As exortações que o Santo Padre faz a estes responsáveis são suficientemente claras sobre a necessidade que ainda existe da obediência à unidade por parte das pessoas que dão corpo a carismas (não só neste, mas em tantos movimentos, associações e obras/ordens), para a qual convergem as inspirações divinas dos próprios dons e carismas. Vejamos, neste caso:

  1. Os carismas são para o bem comum;
  2. Nenhum dom é mais importante que outros, só a caridade que tudo aperfeiçoa e harmoniza;
  3. A nossa missão é particular, mas não exclusiva;
  4. Um carisma é específico, mas traz fruto na comunhão com os outros dons na vida da Igreja;
  5. O bem que tanto o movimento faz deve respeitar o percurso de vida e a consciência de cada um;
  6. Viver a própria espiritualidade sem jamais se separar do resto do corpo eclesial, como parte viva da pastoral ordinária das paróquias e das diversas realidades, em plena comunhão com os irmãos e em particular com os presbíteros e os bispos;
  7. Alegria e humildade sem fechamentos, como construtores e testemunhas da comunhão;
  8. «Onde está o Espírito do Senhor há liberdade» (2Cor 3,17) ─ O anúncio do Evangelho, as catequeses, as diversas formas do agir pastoral devem ser sempre livres de formas de constrição, rigidez e moralismos, para que não aconteça que esses possam suscitar sentimentos de culpa e temores, em vez da libertação interior.

Rezo para os os pastores assistam a todos ─ pessoas, comunidades e movimentos ─ de forma orgânica em favor de todos; e que os agentes pastorais, sejam de que dinamismo ou carisma for, se deixem assistir pelos pastores no único Mestre que é Cristo. A diversidade na unidade, para que haja mais eficácia e credibilidade. Oremos, irmãos.