navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1: Is 8, 23b – 9, 3 (9, 1-4); Sl 26 (27), 1. 4. 13-14 L 2: 1Cor 1, 10-13. 17; Ev: Mt 4, 12-23 ou Mt 4, 12-17, no III Domingo do Tempo Comum (Ano A), Domingo da Palavra de Deus. Numa Festa a São Sebastião. Reflexão inspirada em parte em VV.AA. Comentários à Bíblia Litúrgica. Assafarge: Gráfica de Coimbra 2, 2007.

A PRIMEIRA MISSÃO DE JESUS (CARATERÍSTICAS)

Mateus ─ o evangelista pelo qual proclamaremos o Evangelho de Jesus Cristo durante este ciclo A da liturgia ─ coincide com o evangelista Marcos ao afirmar que Jesus começou a sua atividade na Galileia, depois do Batista ter sido preso. Com o que escreve a este respeito, Mateus quer informar-nos das grandes linhas da primeira parte da missão de Jesus: a) O Messias da Palavra, o pregador (capítulos 5 a 7); b) O Messias das obras, o médico que cura todas as doenças (capítulos 8 a 9). Assim, o essencial do ministério (serviço) de Jesus foi ensinar/pregar e curar.

Mateus quer insinuar também a universalidade da pregação de Jesus, uma vez que a Galileia é uma terra fronteiriça com a terra dos pagãos, com a qual estes se cruzam. Apesar de Lucas e João concordarem mais que Jesus realizou o seu ministério quase exclusivamente no meio dos judeus, o que por este evangelho se quer garantir é que a atividade de Jesus se destina a toda a humanidade e que diante de Deus ninguém deve pretender ter exclusividade. Porque Jesus é a luz para todos os povos (cf. Is 9,1-2).

O resumo da pregação de Jesus coincide literalmente com o que o Batista afirmou: «Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos Céus». É o convite para todos, a voltarmo-nos para Deus com toda a profundidade e a radicalidade de uma autêntica conversão , porque Deus está próximo e também Se volta para nós. A diferença entre João Batista e Jesus é a de que o anuncio da proximidade do Reino feito por João se converte na presença do Reino em Jesus mesmo.

OS PRIMEIROS DISCÍPULOS DO MESTRE (CARATERÍSTICAS)

Jesus não inicia a sua missão de forma solitária, mas sinodal, convidando alguns homens a caminhar numa maior intimidade com Ele. E o mote do chamamento foi «Vinde e segui-Me e farei de vós pescadores de homens». O chamamento que faz àqueles pescadores é um convite a caminhar com Ele e tem uma finalidade que é participar na sua missão divina.

Também entre os judeus o verdadeiro discípulo se formava no seguimento do seu mestre e a sua vida era modelada pela aceitação do jugo que o mestre lhes impunha. Existe um paralelismo entre o discipulado judaico e o cristão: entrar para a escola de um mestre, viver com ele, aceitar os seus ensinamentos, renunciar a muitas coisas. Mas a par destas semelhanças, também existem profundas diferenças: no discipulado judaico, a iniciativa era do aluno que queria “matricular-se” numa determinada escola entre muitas, de respetivos mestres; no discipulado cristão, a iniciativa é sempre de Cristo, que é quem chama. Os discípulos do judaísmo eram-no com a esperança de um dia deixarem de o ser, convertendo-se também eles em mestres; o discipulado na escola de Cristo é permanente, uma vez que só Cristo é verdadeiro Mestre. A vida do discípulo judeu podia vir a ser muito diferente da do seu mestre; o discípulo cristão tem que viver à semelhança do seu Mestre e “beber o cálice” que Ele bebeu.

Outro elemento que não tem paralelo com o mundo judaico e que é de origem cristã é a missão do serviço da Palavra de Deus que Jesus confiará aos seus discípulos: «farei de vós pescadores de homens». Missão que vincula a Jesus aqueles que são chamados por Ele. Vemo-l’O, assim, no mesmo plano de Javé no Antigo Testamento, chamando os profetas para o mesmo serviço da Palavra. Este é um chamamento insistente e irresistível, apesar da resistência e repugnância que experimenta aquele que é chamado a um tal serviço, devido às dificuldades que o anúncio da Palavra acarreta. Isto aconteceu com Jeremias (cf. Jr 20,7ss), com Paulo (cf. 1Cor 9,16) e com São…

O DESAFIO HODIERNO DE SERMOS DISCÍPULOS-MISSIONÁRIOS NO NOSSO CONTEXTO

… Sebastião. Este homem, como tantos outros cristãos ouviram a Palavra e sentiram um ímpeto irresistível de a transmitir, como Palavra que chama à conversão, diante das consequências que uma eventual rejeição ou perseguição implicaria. Anunciar o Reino de Deus, com as suas leis e exigências, leva a participar na mesma dignidade de Jesus, com a glória que acarreta sacrifícios.

Sebastião – como refere santo Ambrósio – era oriundo de Milão. Partiu para Roma, onde grassavam violentas perseguições aos cristãos. Por considerar a fidelidade a Cristo acima de qualquer honra civil ou militar, foi irradiado dos quadros do exército e, na perseguição de Diocleciano (por volta do ano 300), na Urbe romana, para onde tinha ido como hóspede, obteve o seu corpo domicílio de imortalidade perpétua. Neste dia foi depositado na Via Ápia ad Catacumbas, em Roma, onde é venerado pelos fiéis desde a mais remota antiguidade.

Dom Rino Fisichella, Pró-Prefeito do Dicastério para a Evangelização, na apresentação do subsídio litúrgico-pastoral para a 7ª edição do Domingo da Palavra de Deus (no 3º Domingo do Tempo Comum), comentando a expressão bíblica que inspira este dia ─ “A palavra de Cristo habite entre vós” (Col 3,16), reflete: Recebemos do Apóstolo não um mero convite moral, mas a indicação de uma nova forma de existência. Paulo não pede que a Palavra seja apenas ouvida ou estudada: ele quer que ela ‘habite’, isto é, que se fixe de forma estável, plasme os pensamentos, oriente os desejos e torne
credível o testemunho dos discípulos. A Palavra de Cristo permanece como critério seguro que unifica e torna fecunda a vida da comunidade cristã.

Então, quais seriam as caraterísticas de um cristão que, à maneira dos apóstolos e dos santos, seguem hoje a Jesus Cristo? Poderíamos dizer muitas ou um arsenal delas, mas a palavra de hoje sugere algumas essenciais, que não nos deixam parados a olhar só para o “dedo” do Santo que aponta, mas para a mesma realidade que é Cristo e a missão para a qual Ele nos chama a servir:

Um discípulo de Jesus hoje, à luz deste Domingo da Palavra de Deus (Is 8–9; 1Cor 1; Mt 4), é alguém que se deixa iluminar pela Palavra, se converte continuamente e segue o Senhor na missão, em comunhão com a Igreja.

1. Iluminado pela Palavra

  • Vive a consciência de que caminhava nas trevas e foi alcançado por uma luz maior, deixando-se consolar e libertar pelo Senhor, como o povo da Galileia de Isaías.
  • Reza e celebra com a Igreja a Palavra de Deus, reconhecendo-a como luz, salvação e casa onde deseja “habitar… todos os dias” (Sl 26).
  • Assume o Domingo da Palavra de Deus como convite a dar centralidade quotidiana à Escritura na oração, na catequese e na vida familiar e comunitária.

2. Chamado à conversão contínua

  • Escuta o apelo de Jesus: “Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos Céus”, deixando que a Palavra reoriente critérios, opções e afetos.
  • Reconhece as próprias trevas (pecado, resignação, indiferença) e abre espaço para um recomeço, como a Galileia humilhada que é prometida à glória.
  • Cultiva um estilo de vida penitencial e disponível à mudança, não como moralismo, mas como resposta agradecida à graça que o visita.

3. Seguidor que deixa as “redes”

  • Tem a coragem de deixar “redes, barco e pai” – seguranças, esquemas e a mera rotina – para pôr Jesus no centro das decisões concretas.
  • Vive a fé como seguimento efetivo (tempo, serviços, prioridades), não apenas como simpatia ou pertença sociológica.
  • Aprende a ler a própria profissão e responsabilidades como lugar onde Jesus passa e chama, tal como passou à beira do lago junto dos pescadores.

4. Pescador de pessoas pela Palavra

  • Participa na missão de Jesus “proclamando o Evangelho do reino” e aproximando-se das feridas humanas (doenças e enfermidades de hoje).
  • Torna-se “pescador de homens”: aproxima, escuta, acompanha, ajudando outros a encontrar a luz de Cristo através do testemunho e do anúncio explícito da Palavra.
  • Deixa-se formar pela Igreja e pelos seus recursos (como o subsídio do Domingo da Palavra) para evangelizar com mais profundidade e fidelidade.

5. Construtor de unidade na Igreja

  • Assume o apelo de Paulo: “falai todos a mesma linguagem e não haja divisões entre vós”, recusando partidarismos e rótulos dentro da comunidade.
  • Centra a própria identidade cristã em Cristo crucificado e não em figuras, grupos ou sensibilidades particulares: “Estará Cristo dividido?”.
  • Colabora para que a comunidade seja lugar de comunhão e não de rivalidade, deixando que a cruz de Cristo purifique vaidades e lógicas de poder.

Em São Sebastião, que tão bem soube incarnar a Palavra que é Cristo, Deus anda aí à procura de cada um de nós, convidando-nos a deixarmo-nos habitar pela sua Palavra e agindo segundo a sua vontade que é colaborar na salvação de todos.