L 1: 1Sm 18, 6-9: 19, 1-7; Sl 55 (56), 2-3. 9-10ab. 10c-11. 12-13; Ev: Mc 3, 7-12, na memória de São Vicente, diácono e mártir
Jesus é o primeiro diácono da história. É o ser Servo que está no âmago do ser Sumo Sacerdote e Bom Pastor: a prefiguração dos três graus do Sacramento da Ordem, em que diáconos, presbíteros e bispos participam. Assim, como contemplamos no Evangelho, ele cura, ensina e guia as multidões. E ele proíbe aos espírito impuros que o deem a conhecer, precisamente para que o título de Filho de Deus não levasse a que O apertassem ainda mais à sua volta. Porque o serviço de que dá testemunho é um serviço humilde (do Filho do Homem) e para ser eficaz tem de ser aceite ou acolhido como tal.
É curioso notarmos que, na vida pública de Jesus, umas vezes as obras da cura precedem os momentos de pregação, outras vezes permeiam-nos. A sua missão “terapêutica” (therapein = trato, serviço) é feita de pregação e cura, ou ensino e cuidado. No entanto, o mais determinante é a complementaridade entre a intimidade de Jesus com o Pai e o serviço de ensino e cuidado para com os irmãos.
Por vezes, temos pressa em falar antes de conhecer melhor a Deus na intimidade. Não podemos ser “divulgadores” da fé sem ser, primeiro, testemunhas do amor de Deus a nosso respeito. A partir daqui, é preciso deixar que as nossas obras falem primeiro que as nossas palavras, para que a nossa vida seja um verter contínuo do amor de Deus que transborda a partir de nós. Quando percebemos que não temos muito de profundo para dizer poderá ser um sinal de Deus a provocar-nos à ação da caridade. Esta não precisa de barulho, basta-lhe a força do que Deus já fez na nossa vida. Na verdade, Deus é próprio realizador da saga histórica do “favores em cadeia”.
A numerosa multidão persegue Jesus porque se dá conta que chegou o tempo da promessa dos antigos profetas. Em especial, os mais necessitados procuram-n’O porque encontram n’Ele a fonte da vida nova. E Ele quer ser acolhido, não como um simples benfeitor ou pessoa que arrasta multidões, mas como um provocador de um encontro em que as pessoas partam e cresçam na fé, a fé que há de nascer no coração e não na exaltação momentânea, fruto de emoção.
Assim, as nossas boas obras são cúmplices do cumprimento das promessas de Deus, não meramente as palavras. Porque “o bem não faz barulho e o barulho não faz bem” (S. Francisco de Sales). Olhemos para Maria: “Eis a serva (ou “escrava”) do Senhor, faça-se em mim segundo a tua Palavra”. Maria é a mulher do silêncio operante. Ela não interpõe diante de Deus nenhuma palavra que possa obstaculizar o seu projeto, a não ser no diálogo íntimo que ajuda a desobstruir as dúvidas ou o medo que pudessem limitar o Sim. E com José passa-se algo semelhante: nenhumas palavras se narram dele (presume-se que no recenseamento tenha dito o nome “Jesus”), é referido algum pensamento, e muita colaboração prática com o projeto de Deus, que lhe revelado em sonhos.
Os italianos têm um ditado que diz “Tra il dire e il fare c’è di mezzo il mare” (trad. “Entre o dizer – a intenção – e o fazer – a ação – está o mar de permeio). E como, por vezes, as nossas intenções atrasam ou nos distanciam da prática da Palavra de Deus! É na pressão de (boas ou más) intenções que o Senhor age, pedindo que se coloque precisamente neste “mar” que nos distancia da sua Palavra ou nos impede de ter presente o horizonte da salvação que o Senhor manda colocar uma “barca”, para dali nos ensinar.
Dom Rino Fisichella, Pró-Prefeito do Dicastério para a Evangelização, na apresentação do subsídio litúrgico-pastoral para a 7ª edição do Domingo da Palavra de Deus (no 3º Domingo do Tempo Comum), comentando a expressão bíblica que inspira este dia ─ “A palavra de Cristo habite entre vós” (Col 3,16), reflete: Recebemos do Apóstolo não um mero convite moral, mas a indicação de uma nova forma de existência. Paulo não pede que a Palavra seja apenas ouvida ou estudada: ele quer que ela ‘habite’, isto é, que se fixe de forma estável, plasme os pensamentos, oriente os desejos e torne
credível o testemunho dos discípulos. A Palavra de Cristo permanece como critério seguro que unifica e torna fecunda a vida da comunidade cristã.
A pregação de Jesus no meio de um mar cheio de meras intenções é coroa da pregação de Jónatas diante de seu pai Saul, lembrando-lhe não a mera boa intenção de David, mas a sua ação de livrar Israel do filisteu. Hoje é a Igreja, esta mesma “barca” de onde Jesus continua a presidir ao ensino e à cura, o espaço onde necessidades e respostas, mas também a urgência da leitura dos “sinais dos tempos” – que constituem (segundo Tomás Hálik, em O sonho de uma nova manhã) a autoexpressão de Deus através de acontecimentos do mundo -, em contraposição com o “espírito do tempo” ou uma certa mentalidade da sociedade, feita de reações imediatas, de modas, de “opinião pública”, sugestão de massas, publicidade ou propaganda ideológica. Enquanto que o espírito do mundo se propaga velozmente pelos órgãos de comunicação de massas como “doença infecciosa”, o discernimento dos sinais dos tempos tem lugar em processos lentos, a partir do encontro com a realidade contemplada à luz da Boa Nova.
