navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1: 1Sm 16, 1-13; Sl 88 (89), 20. 21-22. 27-28; Ev: Mc 2, 23-28, na memória do mártir S. Sebastião. Reflexão inspirada em parte em VV.AA. Comentários à Bíblia Litúrgica. Assafarge: Gráfica de Coimbra 2, 2007. Os itálicos são das admonições do dia em liturgia.pt.

O texto da primeira leitura narra-nos a eleição de David. A unção de David por Samuel ajusta-a a um esquema muito uniforme em quase todos os relatos de eleição. O próprio povo de Israel não foi escolhido por ser o mais numeroso, nem por ser o melhor, muito pelo contrário: é o mais pequeno e de dura cerviz. É, pois, escolhido por puro amor (cf. Dt 7,7-8). Segundo as versões bíblicas do acesso de David à vida pública (1 Sm 16,14-23; 1 Sm 17,12-30; e 1 Sm 16,1-13) dá a impressão que ele está para Saul como Jesus está para João Batista. E agora percebemos melhor como Saul, sem conhecer David, acaba por “sofrer” ou experimentar aquela humilhação em favor do crescimento do pastor/rei David, como João Batista expressou a respeito de Jesus: “que eu diminua para que Ele cresça”.

Deus age muitas vezes de maneira “subversiva” em relação à mentalidade ou lógica dos homens. Ele vê um coração nobre onde os outros veem só beleza. E é desta forma de Deus gerir o acompanhamento do povo que vamos construindo uma frase que tanto alegra os chamados: Deus não chama os capacitados, mas capacita os que chama. E Deus não dá importância às aparências, tanto como à pureza do coração.

Assim, a gratuidade divina é aclamada por muitos dos chamados, como Paulo expressou: “Deus escolheu o que é louco aos olhos do mundo para confundir os sábios; escolheu o que é vil e desprezível, o que nada vale aos olhos do mundo, para reduzir a nada aquilo que vale” (1 Cr 1,26-28).

É o mesmo coração puro que, segundo Jesus, pode levar a fazer ao sábado “o que não é permitido” pelos homens, por parte daquele que dá mais apreço à vontade de Deus. Grande referência há de ter sido David para Jesus, para o Mestre dizer: “O sábado foi feito para o homem e não o homem para o sábado. Por isso, o Filho do homem é também Senhor do sábado”. Certamente Ele se recordaria das suas histórias em relação à passagem pelo templo em dia de sábado. Certamente os seus ensinamentos da autoridade divina encontraram uma alavanca na genuinidade do “pastor de Belém”, assim chamado também David.

O descanso que lhe estava ligado ao sábado tinha um sentido que encontrava em Jesus a sua plenitude. Ele é Senhor do sábado: Ele é a Paz, o encontro do homem com Deus, o repouso em Deus.

S. Sebastião, que era de Milão, partiu para Roma, onde grassavam violentas perseguições aos cristãos, como confessor da fé em Cristo, considerando a fidelidade a Cristo acima de qualquer honra civil ou militar. É este o tipo de “subversão” dos que têm um coração puro: aquele onde só cabe a vontade de Deus que nos salva em Jesus Cristo. Santo Ambrósio, na leitura do Ofício desta memória, aconselha-nos a ter cuidado com os perseguidores invisíveis, aqueles de que o inimigo se serve para nos impedir de viver piedosamente em Cristo. Não há testemunho melhor do que aquele de uma boa consciência.