L 1: 1Sm 15, 16-23; Sl 49 (50), 8-9. 16bc-17. 21 e 23; Ev: Mc 2, 18-22. Reflexão inspirada em parte em VV.AA. Comentários à Bíblia Litúrgica. Assafarge: Gráfica de Coimbra 2, 2007. Os itálicos são das admonições do dia em liturgia.pt.
Na liturgia da Palavra de hoje assistimos a dois debates proféticos: um entre Samuel e Saul, outro entre Jesus e os fariseus e os discípulos de João Batista.
Saul é, no entender dos biblistas, uma das personagens mais maltratadas pela história. E não é fácil justificar os motivos da sua desqualificação como rei com razões convincentes. No texto de hoje, Saul é acusado de não ter observado estritamente a lei do “herem”, ou seja, a lei que mandava sacrificar a Deus todos os despojos. Implicitamente, é acusado de querer suprir com sacrifícios e oferendas a sua falta de fé e obediência à palavra de Deus. Alguns autores pensam que a história de Saul acontece numa época em que os reis de Israel se vinham progressivamente dessacralizando, como os reis do norte e do sul com que Oseias e Isaías se debateram, acusando-os de seguir uma política secularizante de alianças humanas, abandonando a fé em Javé e a aliança sagrada. Talvez no texto de hoje, a desqualificação de Saul tenha tido como fim dar mais releva à pessoa de David, como se prova na linha ascendente de idealização a seu respeito que se observa mais concretamente no Livro das Crónicas. Saul não foi um santo, mas também não merece tanto desprezo; o que se pode verificar na sua pessoa em relação ao rei David é o mesmo que João Batista professa em relação ao Messias: “é preciso que eu diminua para que Ele cresça”.
A novidade da Boa-Nova, do Evangelho, que Jesus vem proclamar, custa a ser compreendida pelos homens, que, muitas vezes, só ouvem as palavras e não chegam a compreender-lhes o sentido. A presença de Jesus no meio dos seus discípulos era qualquer coisa de novo, e muito maior do que todos os anúncios proféticos anteriores à sua vinda. Todos eles O anunciavam. Mas os discípulos só agora começavam a ter essa experiência e, em Jesus, a entrar numa aliança nova com Deus, que era para eles como a alegria de um noivado. Um dia virá a ausência do “Noivo”, a hora em que Ele for levado à morte. Então jejuarão, jejum este que está na origem do “jejum pascal” da Igreja.
Estamos a viver a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, este ano animada pelo tema «Vocês formam um só corpo e um só espírito, do mesmo modo que a esperança para a qual foram chamados é uma só»(Efésios 4:4). A notícia que enriquece a minha oração de hoje é nova «Carta Ecuménica», assinada em Roma em 5 de novembro de 2025, com novas diretrizes de cooperação, sublinhando compromissos comuns em defesa dos migrantes e na preservação do ambiente. Esta carta desafia Igrejas a rejeitar instrumentalização da fé e a abrir a mesa aos imigrantes. A presidente da Igreja Evangélica Presbiteriana de Portugal, Sandra Reis, alerta para divórcio entre cúpulas e comunidades, pedindo que documentos não fiquem a apanhar pó. De facto, como refere Tomás Hálik (em “O Sonho de uma nova manhã“), as comunidades eclesiais, por vezes, ficam-se presas a formas de religião, sem serem capazes de não confundir essas formas com os conteúdos, afastando-se do verdadeiro “núcleo das coisas”: a própria vida de Deus que desemboca na história humana, pela encarnação, morte e ressurreição de Jesus Cristo que a Igreja é chamada a acolher como processo. O Santo Padre recebeu a delegação ecuménica da Finlânida e destacou “sinais de esperança” dos cristãos.
Hoje rezo para que as nossas comunidades católicas deixem de ter o tema do ecumenismo como tabu e cresçam aprendendo a não manifestar-se com mecanismos de defesa que acabam por ser doentios em relação à maturidade da fé. E que tenham a coragem de diminuir ara que Jesus cresça em todos.
