navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1: 1 Sam 4, 1-11; Sal 43 (44), 10-11. 14-15. 24-25; Ev: Mc 1, 40-45. Reflexão inspirada em parte em VV.AA. Comentários à Bíblia Litúrgica. Assafarge: Gráfica de Coimbra 2, 2007. Os itálicos são das admonições do dia em liturgia.pt.

Nos relacionamentos humanos, também os nossos relacionamentos pastorais, os valores ou qualidades naturais, ou até culturais, podem aparecer ou ser percebidos como “hakas”. Em Jesus, na nova aliança, como garante Paulo, «não há homem nem mulher, grego ou judeu» (Gal 3,28). Em Cristo todas as distinções sociais, raciais e de sexo, desaparecem, pois todos são um e iguais em valor e dignidade, unidos em Cristo Jesus, derrubando barreiras para formar um novo povo de Deus.

Consta que os filisteus eram culturalmente mais evoluídos do que os israelitas, no que toca ao fabrico de armas de metal. Os israelitas estavam habituados a ter presente a arca e os rituais à volta dela para conseguir a vitória pelas mãos de Javé.

O relato de hoje dá a impressão que os israelitas, nesta fase da sua história e na conquista das terras de Canaã, acreditavam mais no poder da Arca do que na Aliança com o próprio Deus. Os filisteus, por seu lado, temeram mais no Deus de Israel, deixando-se intimidar com temor pelo efeito daquele “haka” ou clamor dos israelitas na presença da Arca.

Nesta circunstância, Deus parece ter passado para o lado dos inimigos do povo de Israel, uma vez que tomaram a sua Arca. Foi neste clima de provação que foram compostos os salmos 78, 79 e 80, com os quais o povo interpreta o desastre acontecido como consequência dos seus pecados. O povo descobre-se como que entre “a espada e a parede”, ou seja, entre a “espada” dos filisteus e a “parede” da ira de Deus que de pouco a pouco o povo vai sabendo interpretar como misericórdia.

Trata-se aqui da “dialética da aliança” exposta com toda a clareza pela escola deuteronomista. A aliança tem duas vertentes: a dos privilégios e a das exigências. Se o povo se mantém fiel, o êxito acompanha Israel em todas as suas lutas. Mas, se peca contra as cláusulas da aliança, pode temer o pior. Trata-se mais da deslealdade ou apostasia da família sacerdotal que estava encarregue do santuário de Silo. A lição que se tira daqui, muito útil para nós hoje, poderá ser: a arca, o templo, os sacramentos não são meios mágicos para ter Deus ao nosso serviço. É preciso servir a Deus, mão não servir-se de Deus. Deus não pode ser utilizado ao sabor dos nossos caprichos. De facto, não podemos julgarmo-nos defendidos dos perigos só por termos junto de nós coisas santas; é o coração do homem que tem de estar junto de Deus; as coisas podem ajudar-nos nesta união ao Senhor, mas não a substituem. De facto, não estamos autorizados a usar as coisas de Deus de forma utilitarista ou intimidatória.

Na nova aliança, Jesus supera todo o tipo de estruturas quando se trata de defender os mais vulneráveis ou marginais da sociedade. Fá-lo com gestos de aproximação (o toque) irregulares. E depois da cura, o Mestre envia aquele homem aos sacerdotes, aparentemente, porque só eles podem legalmente restituí-lo ao convívio social; teologicamente, Jesus provoca um diálogo entre a lei e a Boa Nova.

Nas derrotas causadas por todo e qualquer tipo de “lepras”, Jesus anuncia uma boa notícia: está sempre ali a “tábua” da salvação que é a misericórdia de Deus para não deixar cair a vida humana no abismo. Penso numa das crónicas de Narnia ─ O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa ─, em que C. S. Lewis põe a pequenina Lucy a caminhar entre uma floresta e um abismo, caminhando ao lado dela na parte do abismo o Leão Aslan, para que ela não caia.

Jesus é a fonte da vida. Ele, “por quem todas as coisas foram feitas”, é também Aquele que restaura todas as destruições, fruto dos males de que o homem sofre e de que a lepra é sinal bem significativo. Jesus, no entanto, não quer que as suas obras sejam espetáculo, mas sinais da presença do reino de Deus e ocasiões de fé: por isso, não dispensa os que foram curados de se apresentarem aos sacerdotes, conforme a lei ordenava.

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* O Haka, dança tradicional do povo Maori da Nova Zelândia, é famoso no desporto, principalmente no râguebi (All Blacks), mas também aparece no futebol, como nas seleções femininas e masculinas, para mostrar orgulho, força e intimidar adversários, embora não seja uma tradição tão enraizada quanto no râguebi e nem sempre resulte em vitória, como visto em jogos da seleção feminina.